Atenção integral à saúde do adolescente

Habitualmente, o adolescente é um indivíduo saudável, que busca pouco os serviços de saúde. Com isto, perdem-se muitas oportunidades de prestar cuidados antecipatórios e preventivos, e muitas alterações na saúde do adolescente podem passar despercebidas, tais como distúrbios do crescimento e desenvolvimento puberal, acne, patologias ginecológicas, distúrbios alimentares, comportamentais e psicossociais, entre outras. É importante inserir essas patologias, tão comuns na adolescência, no todo que é o adolescente, de uma maneira global, somática e psicossocial.

A vulnerabilidade desta faixa etária faz com que ela necessite de um cuidado amplo e sensível. Essa maior vulnerabilidade aos agravos, determinada pelo processo de crescimento e desenvolvimento, pelas características psicológicas peculiares e pelo contexto social em que está inserido, coloca o adolescente na condição de maior suscetibilidade às mais diferentes situações de risco.

Importância da atenção integral à saúde do adolescente

Levando-se em consideração todas as peculiaridades específicas desta faixa etária, seus aspectos biopsicossociais e a importância demográfica que este grupo representa, está plenamente justificada a necessidade de atenção global à saúde.

A atenção integral específica à saúde do adolescente deve levar em conta a singularidade deste momento do processo de crescimento e desenvolvimento do indivíduo, tão marcado pelo impacto de mudanças físicas e psíquicas, vivenciadas de diversas maneiras, nos diferentes contextos.

Cada sujeito nas suas dimensões biológica, psicológica e sociocultural constitui uma unidade indissociável. Nesse contexto, a atenção a adolescentes e jovens deve pautar-se na integralidade.

Esse paradigma imprime o respeito à diversidade e a certeza de que, para a promoção de uma vida saudável, é preciso, antes de tudo, a inclusão de todos. O setor Saúde deve preocupar-se em assistir o indivíduo desde a concepção até o final da vida, reconhecendo a família como a unidade primária da sociedade, dentro da qual o sujeito se constrói, socializa-se, desenvolve-se e humaniza-se.

Iniciativas na Atenção Básica à Saúde devem incluir a melhoria de condições sanitárias no ambiente físico, e a atenção às necessidades nutricionais, biológicas, psicológicas e sociais em todas as etapas do desenvolvimento humano, dentro do ciclo da vida.

A integralidade da atenção nos serviços de Atenção Básica a Saúde é entendida como a integração das ações de promoção da saúde, de prevenção de agravos e enfermidades, de assistência e de controle de doenças, sempre pautada nos determinantes e condicionantes da saúde.

Os profissionais de saúde que lidam com adolescentes devem aprimorar seus conhecimentos e desenvolver habilidades para entendê-los e atendê-los. As ações de saúde na atenção básica devem, em especial, interferir nos modos e estilos de vida dos indivíduos, das famílias e das comunidades, contribuindo para a melhoria das condições gerais de saúde e cidadania e, dessa maneira, melhorando a vida de todos.

Essa articulação com base na integralidade, exigindo investimentos que se desdobram em ações, deve envolver as mais diversas instituições sociais, governamentais ou não, em especial escolas, clubes, associações e outros.

Resiliência

As relações saúde-doença, em algumas circunstâncias, tomam a forma dos desajustes de adaptação do sujeito com o ambiente, em que a harmonia e a reciprocidade têm de ser preservadas para que o bem-estar seja compartilhado por todos.

Adota-se, então, o conceito de resiliência como proposta emergente de mudança do paradigma na compreensão do enfoque de risco, por intermédio da perspectiva de uma resolução positiva dos problemas, introduzindo-se a ideia de risco “para resistir” às situações de vulnerabilidade.

resiliência
substantivo feminino
1. fís. propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica.
2. fig. capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.

As ações de promoção da saúde propõem o desenvolvimento de estratégias de atenção e de investigação com a finalidade de ajudar o sujeito a enfrentar as suas vicissitudes ao longo da vida.

As concepções construídas às adolescências e juventudes retratam e interpretam as formas e maneiras deles estarem e serem no mundo em determinada sociedade. Por intermédio destas concepções constituem-se parâmetros para o cuidado e a proteção nos ciclos da vida, influenciando direitos e deveres, ações sociais e políticas públicas, reivindicadas por eles ou por grupos que defendem os direitos de adolescentes e jovens.

A população adolescente e jovem vive uma condição social que é única: uma mesma geração, num mesmo momento social, econômico, político e cultural do seu país e do mundo. A modalidade de ser adolescente e jovem depende da idade, da geração, da moratória vital, da classe social e dos marcos institucionais e de gênero presentes em dado contexto histórico e cultural.

Nesse sentido, a atenção integral à saúde dos adolescentes e jovens apresenta-se como um desafio, por tratar-se de um grupo social em fase de grandes e importantes transformações psicobiológicas articuladas a um envolvimento social e ao redimensionamento da sua identidade e dos novos papéis sociais que vão assumindo.

Os universos plurais e múltiplos que representam adolescentes e jovens intervêm diretamente no modo como eles traçam as suas trajetórias de vida. Essas trajetórias bem-sucedidas ou fracassadas são mais que histórias de vida, são “reflexo das estruturas e dos processos sociais” que ocorrem de maneira imprevisível, vulnerável e incerta e que vão interferindo no cuidado com a vida e com a suas demandas de saúde.

Atenção integral à saúde do adolescente

Modelos de Atendimento

Os serviços de atenção à saúde do adolescente utilizam modelos de atendimento que se caracterizam por:

atenção global: o adolescente é um ser indivisível, com suas próprias necessidades, problemas de saúde e relações com o meio;

ligação com universidades: utilização de equipes multiprofissionais, trabalho interdisciplinar e até mesmo parcerias fora da área da saúde (educação, justiça, trabalho);

desdobramento em níveis: primário, secundário e terciário. Entretanto, a prevenção de agravos e a promoção de saúde é o enfoque principal, pois a adolescência é o momento crucial para formação de hábitos e comportamentos para toda a vida.

É importante, portanto, considerar a relação médico-adolescente, a equipe multiprofissional, o paciente em seguimento ambulatorial e o paciente adolescente internado.

Características do Profissional & Relação Médico-adolescente

interesse: é fundamental o bom relacionamento médico-adolescente, que só é possível se o médico gostar de trabalhar com jovens, pois estes logo percebem a falta de interesse ou empatia.
tempo: a consulta do adolescente é demorada, dividida em tempos.
experiência profissional e competência.
firmeza e autoridade: sem, no entanto, parecer autoritário.
saber ouvir e interpretar: o médico deve escutar mais do que falar, e não julgar ou dar palpite. Deve esclarecer e informar sempre que necessário, com retidão, honestidade e veracidade (o que é diferente de advertir).
respeito e consideração: pelo paciente e sua família. É preciso também respeitar a individualidade do jovem, encarando-o como pessoa, e não como objeto de prática científica dirigida a um ou mais órgãos.

Não há uma fórmula pronta e única para trabalhar com adolescentes. Cada jovem é diferente e acrescenta vivência e experiência que permitem aos profissionais a reavaliação constante. Toda forma de generalização gera posturas inadequadas em relação aos jovens.

O adolescente deve identificar-se como sendo ele o cliente, mas pais e/ou responsáveis não devem permanecer à margem do atendimento, pois podem se beneficiar com informações e esclarecimento, bem como fornecer informações importantes para o atendimento.

Para que haja diálogo, não é preciso que o profissional se transforme em outro adolescente. Os profissionais envolvidos devem ter em mente que seus valores são frequentemente diferentes daqueles dos adolescentes, e que só há construção se a história de vida do outro for considerada.

Equipe de Saúde

Idealmente, o atendimento do adolescente deve ser feito por equipe multiprofissional, composta por pelo menos médico, psicólogo e assistente social.

Essa equipe deverá contar com o apoio das especialidades, de acordo com a necessidade. Entretanto, o médico do adolescente deve assumir um papel ativo frente às especialidades, colaborando efetivamente e discutindo cada caso para tomada de decisões comuns, sem deixar de assumir o paciente como um todo.

A equipe deverá trabalhar em conjunto, pois os diferentes campos do saber se complementam e ampliam a abordagem.

São pré-requisitos para a realização do trabalho em equipe:
– ter o adolescente como objetivo do trabalho
– interesse genuíno de todos os profissionais envolvidos
– não-fragmentação do cliente pelas várias áreas profissionais envolvidas
– conhecimento por parte de todos os membros da equipe das características e singularidades da adolescência
– privacidade e confidencialidade
– credibilidade, compreensão e orientação
– respeito mútuo e companheirismo entre os profissionais
– uso de prontuário único para facilitar a atuação
– diagnóstico global realizado com a contribuição de todos

A inexistência ou impossibilidade do modelo multiprofissional não deve impedir a realização do atendimento. Os únicos pré-requisitos imprescindíveis são a capacitação profissional e um ambiente adequado para consulta.

Rede de apoio aos jovens

A participação da Atenção Básica como uma das fontes de fatores de proteção no espaço comunidade, sempre em parceria com as famílias, escolas, instituições de acolhimento e conselhos tutelares é uma possibilidade concreta a ser construída.

A rede de atenção básica quase sempre é a primeira porta de entrada para a busca de uma compreensão, seja do comportamento, de um sintoma ou de uma necessidade de orientação específica (anticoncepção, uso de substância psicoativa, violência doméstica ou sexual, entre outros).

Nem sempre é o(a) adolescente que procura a Unidade Básica de Saúde. Com muita frequência, a família é a primeira a demandar atenção.

Em outras situações, são as escolas e os órgãos de proteção da criança e do adolescente, ou até mesmo agentes de saúde, que encaminham a demanda. O primeiro desafio para a Atenção Básica ir além da demanda referenciada é o trabalho interno com a equipe, conscientizando que o acolhimento de adolescentes e jovens é tarefa de todos os profissionais: da recepção à dispensação de medicamentos, do agente comunitário de saúde ao técnico de Enfermagem, do dentista aos demais profissionais de saúde com formação universitária.

À gerência destes serviços, cabe o planejamento com a equipe e o acompanhamento das ações ofertadas, da gestão do cuidado ofertado e da articulação da linha de cuidado interna e externa na Rede de Atenção à Saúde e na rede intersetorial de assistência. Destaca-se que a assistência ao adolescente começa na assistência à criança e sua família.

Além do atendimento de todas as referidas demandas, o trabalho com as escolas e com a rede de assistência social é fundamental para ampliar a procura direta do adolescente pelo serviço de Atenção Básica.

Parcerias em projetos de Educação e Saúde nas escolas, qualificação das reuniões intersetoriais para acompanhamento de situações de maior vulnerabilidade e parcerias com projetos de Secretarias de Cultura, Esporte e Lazer dos municípios são fundamentais neste sentido.

A oferta de grupos de encontro para adolescentes e familiares que cuidam de adolescentes e jovens é uma boa estratégia que deve ser estimulada pelos profissionais de saúde e entrar no rol de ações ofertadas no planejamento à atenção a adolescentes e jovens.

Além disso, a leitura de vulnerabilidade e resiliência também deve ser uma prática constante, que propiciaria a identificação das situações que merecerão maior atenção e projetos terapêuticos singulares e familiares para complementar a assistência prestada.

Políticas públicas voltadas para os adolescentes

O Ministério da Saúde, visando garantir a atenção integral durante a adolescência, elabora políticas nacionais por meio da Coordenação-Geral de Saúde de Adolescentes e de Jovens, cujo trabalho é voltado para a promoção, proteção e recuperação da saúde de adolescentes e jovens na faixa etária dos 10 aos 24 anos.

Busca-se, com isso, reduzir as principais doenças e agravos, bem como melhorar a vigilância à saúde e contribuir para a qualidade de vida dessa faixa etária da população.

A Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1989, adotou a Convenção sobre os Direitos da Criança introduzindo, no plano normativo, o valor intrínseco da criança e do adolescente como ser humano, a necessidade de especial respeito a sua condição de pessoa em desenvolvimento, o reconhecimento como sujeitos de direitos e sua prioridade absoluta nas políticas públicas.

A partir do reconhecimento das questões prioritárias na atenção à saúde deste segmento, a Coordenação-Geral da Saúde de Adolescentes e Jovens elaborou o documento “Proteger e Cuidar da Saúde de Adolescentes na Atenção Básica (Ministério da Saúde, 2017)“, para auxiliar as Equipes de Atenção Básica/Saúde da Família no trabalho com esse público, propondo como grandes eixos:
– cuidado da saúde;
– hábitos saudáveis;
– atenção aos principais aspectos clínicos.

Estratégia IMAN

Visando preencher uma lacuna na capacitação do profissional de saúde no atendimento a adolescentes na atenção básica, em 2005 a Organização Pan-Americana da Saúde criou a Estratégia de Integração de Manejo dos Adolescentes e suas Necessidades (IMAN).

Trata-se de um conjunto de algoritmos e textos que tem por objetivo oferecer informações rápidas e concisas para que os profissionais possam prestar um atendimento integral aos adolescentes de ambos os sexos, com idades entre 10 a 19 anos. Pode ser usado em uma Unidade Básica de Saúde ou em um departamento ambulatorial hospitalar de referência.

Essa estratégia abarca assuntos técnicos selecionados pela importância ou pela prevalência para que a equipe de saúde adquira competências e habilidades para a prestação do atendimento integral a este grupo populacional.

Os adolescentes e jovens têm muitas dúvidas, por exemplo: se o seu desenvolvimento físico está normal, se apresentam alguma doença ou se existe alguma restrição para realizar suas atividades de rotina. Em geral, requerem orientações sobre seus projetos de vida, atividades escolares, atividades laborais, sexualidade ou apenas buscam os serviços de saúde para o acompanhamento de seu desenvolvimento ou indicação de tratamentos específicos.

Além da atenção clínica tradicional, é necessário que as equipes proporcionem aconselhamento, atenção preventiva e de promoção à saúde.

Perguntar: todo adolescente ou jovem, por meio da anamnese, preferencialmente a sós, deve ser inquirido sobre as queixas que motivaram à vinda ao serviço de saúde e sobre os seus antecedentes perinatais, pessoais e familiares. Assim, será possível avaliar sua adaptação do ponto de vista biopsicossocial.

Observar: inclui exame físico (o mais completo possível), determinação do estágio de desenvolvimento puberal, obtenção de medidas antropométricas e identificação de condições patológicas. Qualificar o processo de crescimento e desenvolvimento do adolescente (como normal ou com algum distúrbio) e diagnosticar problemas de saúde que estejam presentes. Verificar sua relação com grupo de pares, família e adultos de referência. Identificar vulnerabilidades, antecipando problemas que possam ser evitados.

Avaliar, determinar ou diagnosticar: abordar, da melhor forma possível, as questões psicossociais dos adolescentes e, se necessário, encaminhar a serviços de maior complexidade. Caso não necessite de encaminhamento, propor o tratamento e explicá-lo, bem como as consequências caso não o siga adequadamente. Explicar quais são os sinais de alarme pelos quais deverá voltar ao serviço de saúde imediatamente para reavaliação.

Tratar: uma vez identificada uma doença ou uma situação de risco no adolescente, é necessário iniciar o tratamento pertinente para estabilizar suas condições antes de referi-lo para outro serviço ou hospital para o prosseguimento do tratamento. No caso de não haver necessidade de referência para outro serviço, indicar-se-á o tratamento correspondente e deve-se explicar claramente em que consistem as alternativas terapêuticas. É fundamental assegurar a compreensão das medidas terapêuticas e decidir com o adolescente as alternativas mais convenientes.

Acompanhar: de acordo com a condição identificada. Se for um adolescente saudável, é conveniente uma avaliação, se possível, duas vezes ao ano.

Aconselhar ou orientar: escutar o adolescente e sua família em suas inquietações, manejando-as sem preconceitos e refletindo, em conjunto, as melhores alternativas para o melhor encaminhamento possível dos problemas apresentados e prevenção de riscos desnecessários.

Caderneta de saúde de Adolescentes

O art. 11 do Estatuto da Criança e do Adolescente assegura o atendimento integral à saúde da criança e do adolescente, por intermédio do Sistema Único de Saúde, garantindo o acesso universal e igualitário às ações e aos serviços para promoção, proteção e recuperação da saúde.

A partir da atenção integral à saúde pode-se intervir de forma satisfatória na implementação de um elenco de direitos, aperfeiçoando as políticas de atenção a essa população. Uma estratégia de sucesso tem sido a utilização da Caderneta de Saúde de Adolescente, masculina e feminina, que contém informações a respeito do crescimento e desenvolvimento, da alimentação saudável, da prevenção de violências e promoção da cultura de paz, da saúde bucal e da saúde sexual e saúde reprodutiva desse grupo populacional.

Traz ainda método e espaço para o registro antropométrico e dos estágios de maturação sexual, das intervenções odontológicas e o calendário vacinal. Profissionais de saúde, educadores, familiares e os próprios adolescentes encontram nesse instrumento um facilitador para a abordagem dos temas de interesse das pessoas jovens e que são, ao mesmo tempo, importantes para a promoção da saúde e do autocuidado.

Os profissionais de saúde devem usar a Caderneta como instrumento de apoio à consulta, registrando os dados relevantes para o acompanhamento dos adolescentes na Atenção Básica:
Caderneta de Saúde da Adolescente – Menina
Caderneta de Saúde do Adolescente – Menino

Referências Bibliográficas

01. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. Proteger e cuidar da saúde de adolescentes na atenção básica [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. Brasília: Ministério da Saúde, 2017. 234p.
02. São Paulo (Cidade). Secretaria da Saúde. Coordenação do Desenvolvimento de Programas e Políticas de Saúde – COODEPPS. Manual de Atenção à Saúde do Adolescente. São Paulo: SMS, 2006. 328p.


• Marcelo Meirelles
– Médico Pediatra
– Médico Hebiatra (Especialista em Medicina do Adolescente)


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