Recusa alimentar


Anorexia, ou inapetência na infância, é uma das queixas mais comuns em consultórios pediátricos, especialmente quando há recusa alimentar crônica sem motivo aparente.

A recusa alimentar é determinada, na maioria dos casos, por múltiplos fatores.

Embora a maioria das crianças tenha apetite apropriado para a idade, é frequente os cuidadores relatarem comportamento alimentar imprevisível e variável. Com a preocupação e intervenção, às vezes coercitiva e controladora – por desconhecimento do comportamento alimentar infantil, acaba havendo recusa alimentar. Esta torna-se fator de conflito na dinâmica familiar e na relação pais-filho.

Picky eaters: são crianças que apresentam neofobia alimentar ou têm fortes preferências por certos alimentos, preparações e grupos alimentares. É um termo complexo, cuja definição ainda não é clara. É descrito como consumo inadequado de uma variedade de alimentos.

Características do comportamento alimentar infantil

Neofobia: quando a criança se nega a experimentar qualquer tipo de alimento desconhecido e que não faça parte de suas preferências alimentares. Crianças em formação do hábito alimentar não aceitam novos alimentos prontamente. Para que esse comportamento se modifique, é necessário que a criança prove o novo alimento em torno de 8 a 10 vezes, mesmo que em quantidade mínima. Somente assim ela passa a conhecer o sabor do alimento e a estabelecer seu padrão de aceitação.

Apetite variável e momentâneo: dependente de vários fatores, como:
– idade: a queixa de falta de apetite é muito comum no segundo ano de vida, quando o crescimento físico diminui bastante em relação ao primeiro ano, e consequentemente, o apetite também.
– condição física e psíquica, atividade física: a criança cansada ou superestimulada com brincadeiras pode não aceitar a alimentação de imediato.
– temperatura ambiente: no verão o apetite pode ser menor que no inverno.
– ingestão na refeição anterior: o apetite pode diminuir se, na refeição anterior, a ingestão calórica foi grande.
– forma de apresentação do alimento: além do apetite ser regulado pelos alimentos preferidos pela criança, a cor, a textura e o cheiro também o estimulam.

Preferência pelo sabor doce: os alimentos preferidos pela criança são os muito calóricos e de sabor doce, que é inato ao ser humano e não necessita de aprendizagem como os demais sabores. É normal a criança querer comer apenas doces, mas cabe aos pais estabelecer os limites quanto a horário e quantidade.

Mecanismos internos de saciedade: determinam a quantidade de alimentos de que a criança necessita, e por isso, deve ser permitido que ela ingira o quanto lhe apetece. Quando a criança já for capaz de servir-se à mesa e comer sozinha, deve ser estimulada.

Preferências alimentares individuais: devem ser respeitadas. Em caso de recusa insistente de determinado alimento, o ideal é substituí-lo por outro que tenha os mesmos nutrientes ou variar seu preparo.

Recusa alimentar

Epidemiologia da recusa alimentar

– acomete sobretudo crianças entre 14 e 60 meses de idade;
– afeta sexos masculino e feminino na mesma proporção;
– 25-35% das crianças são descritas por seus pais como tendo dificuldades na alimentação.

Tratamento da recusa alimentar

A criança com seletividade alimentar tem preferência por um pequeno número de alimentos e sempre de determinados tipos ou da mesma consistência. Ela pode até experimentar novos sabores, mas não os incorpora ao hábito alimentar.

É quase sempre impossível fazer uma criança comer diante de uma recusa. Quando se insiste na oferta, o ambiente fica tenso e os alimentos são associados a um confronto, o que termina por agravar a recusa alimentar.

Orientações gerais

Na prática diária, a grande maioria das queixas de falta de apetite se refere à indisciplina alimentar (que reflete a falta de limites em todos os setores da vida da criança): falta de horários fixos de refeição; substituição de refeição por lanches e beliscos; consumo de guloseimas em qualquer horário. Há seletividade alimentar (com exclusão de legumes, verduras, frutas e carnes) e preferência por alimentos líquidos ou pastosos (principalmente os lácteos).

São necessárias orientações gerais para que a conduta alimentar da criança seja saudável e a formação do hábito, adequada:
não forçar a criança a comer: comportamentos como recompensas, chantagens, subornos, punições ou castigos devem ser evitados, pois podem reforçar a recusa alimentar.
cumprir horários das refeições: devem ser fixos diariamente. Um grande erro é oferecer ou deixar a criança se alimentar sempre que deseja, pois assim ela não tem apetite no momento das refeições.
respeitar intervalos entre as refeições: devem ser suficientes para que a criança sinta fome na próxima refeição (2-3 horas); no pré-escolar e no escolar, o esquema alimentar deve ser composto por cinco ou seis refeições diárias (8h: café da manhã, 10h: lanche matinal, 12h: almoço, 15h: lanche vespertino, 19h: jantar, antes de dormir: lanche/ceia não obrigatório).
definir tempo para cada refeição: deve-se estabelecer um tempo definido e suficiente para cada refeição. Se nesse período a criança não aceitar os alimentos, a refeição precisa ser encerrada, oferecendo-se algum outro alimento somente na próxima refeição.
acomodar a criança à mesa: a criança deve ser confortavelmente acomodada à mesa com os outros membros da família. A aceitação dos alimentos se dá não apenas pela repetição à exposição, mas também pelo condicionamento social, e a família é o modelo para o desenvolvimento de preferências e hábitos alimentares. É importante que, desde o primeiro ano de vida, na introdução dos alimentos complementares, a criança observe outras pessoas se alimentando.
cuidados com o ambiente: o ambiente na hora da refeição deve ser calmo e tranquilo, sem televisão ligada ou outras distrações, como brincadeiras ou jogos. É importante que a atenção esteja centrada no ato de se alimentar, a fim de que o organismo possa desencadear seus mecanismos de saciedade. Além disso, o ambiente tranquilo facilita a confiança e o prazer da criança em se alimentar.
oferecer porções de tamanho adequado: deve estar de acordo com o grau de aceitação da criança (a regra geral, nos primeiros anos de vida, é oferecer uma colher do alimento para cada ano). É comum o cuidador, por preocupação, servir uma quantidade maior do que a criança consegue ingerir. O ideal é oferecer uma pequena quantidade e perguntar se a criança deseja mais.
sobremesa: deve ser oferecida como mais uma preparação da refeição, evitando-se utilizá-la como como recompensa ao consumo dos demais alimentos.
líquidos: a oferta de líquidos nos horários das refeições deve ser controlada, pois distendem o estômago, podendo dar o estímulo de saciedade precocemente. O ideal é oferecê-los depois da refeição, preferencialmente água ou uco natural. Refrigerantes não precisam ser proibidos, mas devem ser ingeridos apenas em ocasiões especiais.
guloseimas: salgadinhos, balas e doces não devem ser proibidos, porque isso estimularia ainda mais o interesse da criança. Podem ser consumidos em horários adequados e em quantidades suficientes para não atrapalhar o apetite da próxima refeição.
envolver a criança nas tarefas de realização da alimentação: como participar da escolha do alimento, da compra no mercado e da sua preparação.
evitar monotonia alimentar: a monotonia alimentar, sem variações do tipo de alimento e de preparações, é um fator que pode tirar o apetite e o interesse da criança pelo alimento. Uma alimentação equilibrada precisa ser representada por uma refeição com grande variedade de cores, texturas, formas interessantes e colocação no prato de forma atrativa.

Preferência por alimentos pastosos ou líquidos

A aceitação apenas de alimentos líquidos/lácteos ou semissólidos inicia-se já na introdução de alimentos sólidos ou mais tardiamente, ao redor dos 18 meses de idade.

Pode haver associação com algum evento específico ruim, como engasgo ou vômito (a criança passa a temer a repetição do fato, evitando progressivamente outros alimentos com a mesma textura), ou simplesmente ocorrer porque a criança prefere alimentos com consistência macia ou que se dissolvem na boca.

Por medo de que a criança perca peso, os pais costumam oferecer apenas os alimentos aceitos por ela. Deve-se oferecer alimentos com maior consistência (que a criança possa segurar com as mãos e morder) ou que derretam na boca (como queijo tipo cream cheese). Isto pode aumentar a habilidade em ingerir alimentos sólidos.

A excessiva dependência de leite também pode estar ligada:
– ao conforto de não mastigar;
– ao medo que os pais têm em oferecer alimentos sólidos no primeiro ano de vida da criança, perpetuando esse comportamento até fases mais avançadas da infância.

A ingestão láctea excessiva excessiva reduz o apetite para os alimentos salgados, e frequentemente fome é confudida com sede. Deve-se reduzir a ingesta de leite gradualmente, para que não haja perda de peso.

Não aceitação de legumes, verduras e frutas

A não aceitação de legumes, verduras e frutas também é queixa comum. É importante não forçar a criança a ingerir alimentos de que não gosta.

Recomenda-se oferecer dois novos alimentos por semana, repetindo o oferecimento dos mesmos 2-3 vezes por semana, com preparações variadas, coloridas e atrativas, até que sejam aceitos naturalmente.

Referências Bibliográficas

• Weffort, V.R.; Lamounier, J.A. (Coord.) Nutrição em pediatria: da neonatologia à adolescência. 2a Edição. Barueri: Manole, 2017.


• Marcelo Meirelles
– Médico Pediatra
– Médico Hebiatra (Especialista em Medicina do Adolescente)


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