Síndrome metabólica


A síndrome metabólica é uma condição clínica composta de anormalidades antropométricas, fisiológicas e bioquímicas que predispõem os indivíduos afetados ao desenvolvimento de diabetes tipo 2 e doença cardiovascular.

Mais que a adiposidade total, o componente clínico central da síndrome é a gordura visceral, enquanto a principal anormalidade metabólica é a resistência insulínica.

Resistência insulínica na síndrome metabólica

Várias células e tecidos tem sensibilidade diferenciada à insulina, contribuindo para a variabilidade da expressão da síndrome metabólica. Embora múltiplos tecidos sejam afetados, a resistência insulínica no fígado está emergindo como a provável lesão primária na patogênese da síndrome.

A resistência insulínica tem natureza poligênica, mas a sua expressão fenotípica depende de fatores como um estilo de vida relacionado ao consumo excessivo de gorduras e carboidratos aliado à inatividade física. Acredita-se, assim, que a síndrome metabólica seja desencadeada por uma combinação de fatores genéticos e ambientais.

Os efeitos do aumento da resistência insulínica são múltiplos e incluem:
– o aumento da síntese hepática de VLDL-c, devido à maior produção de triglicerídeos pelo fígado e ao menor catabolismo;
– a resistência à ação insulínica da lipoproteína lipase nos tecidos periféricos;
– aumento da síntese de colesterol com LDL-c menores, mais densas e mais ricas em apolipoproteína B;
– redução dos níveis e do tamanho da HDL-c, relacionada à diminuição da subfração HDL2-c e ao maior catabolismo devido à maior concentração de triglicerídeos nessas partículas;
– aumento da atividade simpática;
– proliferação das células da camada muscular lisa da parede vascular e aumento da formação de placas.

Além disso, os adipócitos produzem substâncias como leptina, adiponectina e resistina, além de outras citocinas como a IL-6 (interleucina 6), TNF-α (fator de necrose tumoral alfa) e PAI-1 (inibidor do ativador de plasminogênio tipo 1), que estão envolvidas na atividade inflamatória vascular, predispondo a formação de estrias e placas ateromatosas.

Prevalência da síndrome metabólica

Em uma amostra de adolescentes retirada do III National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES III, 1988-1994), observou-se a prevalência de síndrome metabólica de 4,2%; entre os obesos, o índice era de 28%.

Dados extraídos do IV National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES IV, 1999-2000) demonstraram prevalência ainda maior entre os adolescentes obesos, de 32,1%.

Estudo de coorte de indivíduos com síndrome metabólica, seguidos desde a infância, por 25 anos, mostrou que o risco de adultos jovens desenvolverem evento cardiovascular foi 20 vezes superior entre os que tinham síndrome metabólica quando crianças, comparativamente aos que não tinham.

Síndrome metabólica

Fatores de risco para síndrome metabólica

Entre os inúmeros fatores de riscos envolvidos no risco potencial de desenvolvimento de síndrome metabólica estão sobrepeso e obesidade, principalmente se há:
– acúmulo de gordura predominantemente abdominal;
– dislipidemias;
– hipertensão arterial sistêmica;
– história pessoal de intolerância à glicose ou diabetes gestacional;
– história familiar de diabetes tipo 2, de doença cardiovascular ou hipertensão arterial;
– presença de acantose nigricans;
– adrenarca precoce;
– síndrome de ovários policísticos.

Alguns estudos sugerem que a síndrome metabólica poderia se originar ainda na fase embrionária e fetal. Estudos longitudinais em crianças demonstraram que o peso de nascimento, tanto o pequeno quanto o grande para a idade gestacional, a exposição intra-uterina ao diabetes e/ou à obesidade materna, também são fatores de risco importantes para o desenvolvimento de hipertensão arterial e diabetes tipo 2 na faixa etária pediátrica.

Embora dados para a avaliação prospectiva das implicações a longo prazo da síndrome metabólica, no jovem, ainda encontrem-se bastante limitados, o estudo de Steinberger et al sugere que a obesidade no jovem está associada à hiperinsulinemia, à diminuição da sensibilidade à insulina e ao aumento do colesterol total e dos triglicerídeos, demonstrando ainda a existência de forte correlação, inversamente proporcional, entre o IMC aos 13 anos e a taxa de utilização de glicose aos 26 anos de idade.

Diagnóstico de síndrome metabólica

Não existe ainda consenso sobre a definição da síndrome metabólica em crianças e adolescentes, no entanto o aparecimento isolado ou associado de alterações clínicas e laboratoriais implica em monitoração frequente e eventual encaminhamento para serviços especializados.

Entre os componentes estão:
– obesidade;
– alterações do metabolismo glicídico (hiperinsulinismo, resistência insulínica, intolerância à glicose, hiperglicemia);
– dislipidemia, (aumento de triglicérides e diminuição do HDL-c);
– hipertensão arterial;
– aumento da circunferência abdominal;
– doença hepática gordurosa não-alcoólica;
– ovários policísticos.

A análise da relação [circunferência abdominal x estatura] pode ser uma ferramenta mais útil para triagem clínica global que a circunferência abdominal.

Critérios para a síndrome metabólica na criança e no adolescente
(Zimmet P, 2007)
aumento da circunferência abdominal (> p90, segundo sexo e idade)
+
pelo menos duas das quatro anormalidades abaixo
Anormalidade
Hipertrigliceridemia > 150 mg/dL
Baixo HDL-colesterol < 40 mg/dL
Hipertensão arterial Sistólica > 130 mmHg e diastólica > 85 mmHg
Intolerância à glicose Glicemia de jejum > 100 mg/dL ou presença de diabetes tipo 2
* A partir de 16 anos, utilizar os critérios da IDF para adultos.

Apesar de não existir ainda consenso sobre os critérios e os pontos de corte de identificação da síndrome metabólica em crianças e adolescentes, o enfoque pediátrico deve ser basicamente preventivo e de atenção à detecção precoce de qualquer componente da síndrome metabólica na infância.

Tratamento da síndrome metabólica

A perda de peso, o controle da pressão arterial, das dislipidemias e da hiperglicemia são os objetivos a serem alcançados no tratamento da síndrome metabólica.

Mudanças no estilo de vida

Os programas que propõem estilo de vida saudável com reeducação alimentar e estímulo à atividade física são as propostas existentes para reduzir a obesidade e suas comorbidades, incluindo a síndrome metabólica, na infância e adolescência.

Medicamentoso

Alguns trabalhos mostraram que pode haver falha terapêutica da mudança de hábito alimentar e prática de exercícios físicos na prevenção da diabetes tipo 2 em adolescentes obesos, com hiperinsulinemia e história familiar de diabetes tipo 2. Assim, o uso de uma droga que aumenta a tolerância à glicose poderia ser útil para impedir a progressão da doença.

Metformina: uma pesquisa com a utilização de metformina, em 2 doses diárias de 500mg, em adolescentes obesos de 12 a 19 anos que apresentavam hiperinsulinismo, demonstrou que a droga pode reduzir a glicemia, os níveis de insulina sérica e diminuir o ganho de peso, interrompendo o ciclo de intolerância à glicose e retardando a progressão à diabetes tipo 2.

A metformina é o único agente insulino-sensibilizante que tem sido avaliado no tratamento da doença gordurosa hepática não alcoólica. Um estudo realizado com pacientes pediátricos mostrou que a metformina baixou os níveis séricos de aminotransferase e reduziu o conteúdo de gordura do fígado, como mostrado por ressonância magnética espectroscópica.

Referências Bibliográficas

• Departamento de Nutrologia. Sociedade Brasileira de Pediatria. Obesidade na infância e adolescência: Manual de Orientação. 2a Edição. Rio de Janeiro, 2012.


• Marcelo Meirelles
– Médico Pediatra
– Médico Hebiatra (Especialista em Medicina do Adolescente)


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