A Consulta do Adolescente





A consulta do adolescente reveste-se de aspectos peculiares que levam em consideração as suas especificidades, diversas do atendimento de outras áreas da medicina e da saúde.

Uma das diferenças mais marcantes da consulta do adolescente em relação à consulta da criança é que o modelo “profissional × pais/responsáveis” passa a ser substituído pela relação direta “profissional × adolescente”. Essa mudança representa, inclusive, uma possibilidade concreta de estímulo para que o adolescente assuma progressivamente a responsabilidade pelo seu autocuidado.

Deve ser pautada por três princípios fundamentais: confiança, respeito e sigilo. Para que isso aconteça, existem três pontos básicos que devem sempre ser lembrados no atendimento ao adolescente:

  • 1) Visão global de saúde: a consulta deve ser completa, abrangendo diversos aspectos da vida do adolescente.
  • 2) Relação médico-paciente diferenciada: como o adolescente, embora menor de idade, necessita de um espaço sozinho e ampliado com o médico, a consulta é realizada em “tempos” ou “momentos” distintos:

    • um tempo em que o médico atende apenas o adolescente;
    • um momento em que o responsável também está presente.

    Nos casos em que houver impossibilidade de uma relação direta com o paciente (retardo mental, por exemplo), a consulta é realizada em um único tempo, com os responsáveis e o jovem.

  • 3) Sigilo e confidencialidade: de acordo com o Art. 103 do CEM, pode-se garantir sigilo ao paciente menor de idade, desde que não incorra em risco de vida para ele próprio ou para terceiros.
✅ A ausência do responsável não pode ser obstáculo para a realização da consulta. Caso o adolescente compareça sozinho, deverá ser atendido. Conforme a necessidade, poderá ser solicitada a presença de um responsável posteriormente.

Como em qualquer idade, a consulta consiste em anamnese, exame físico e solicitação de exames complementares, quando necessários. O objetivo é detectar doenças físicas e avaliar aspectos do desenvolvimento social e psicológico que possam necessitar de intervenção.

Local da Consulta

  • Acessibilidade: o local da consulta deve ser acessível, com acesso desburocratizado e horário flexível, levando em consideração os horários escolares.
  • Marcação por hora: como a consulta do adolescente é mais demorada, pela necessidade de entrevistas separadas e em conjunto com o paciente e seus familiares, a marcação por hora evita a demora no atendimento.
  • Tempo de consulta: é recomendável que o tempo de consulta seja o necessário para que o adolescente possa expressar suas questões, o motivo que o levou até o serviço e a realização de procedimentos.
  • Separação de outras faixas etárias: o ideal é que a sala de espera seja separada de adultos ou crianças, ou que ao menos sejam marcadas em dias ou horários separados para garantir maior privacidade e liberdade ao jovem.
💬 É fundamental criar um ambiente preservado com garantia de sigilo, para que paciente e profissional possam estabelecer uma relação de confiança e credibilidade. Só assim o adolescente poderá sentir-se mais à vontade e seguro para expor o que o aflige de verdade, e o profissional poderá intervir através de suas ações e orientações na profilaxia e prevenção de agravos.

É importante que não se estabeleçam regras rígidas que dificultem ou impossibilitem o acesso dos adolescentes aos serviços.

Aspectos Práticos

É recomendado que familiares e adolescentes conheçam e aceitem a proposta de atendimento do serviço.

  • Empatia: a empatia criada na primeira consulta é fundamental para o sucesso de qualquer abordagem.
  • Foco no adolescente: o adolescente deve ser cumprimentado em primeiro lugar e o atendimento e diálogo estabelecidos preferencialmente com ele. Saber o nome pelo qual o adolescente gosta de ser tratado.
  • Apresentação da equipe: o médico e os demais profissionais presentes deverão ser apresentados.
  • Postura acolhedora: quando o profissional desenvolve uma postura acolhedora, permite que o adolescente expresse suas questões no seu próprio tempo. O médico precisa ser cuidadoso, não emitindo qualquer juízo de valor ou reprovação diante das manifestações do jovem.
  • Sigilo e confidencialidade: a confidencialidade deverá ser explicada e assegurada ao adolescente e aos pais logo na primeira consulta, e só poderá ser quebrada de acordo com os termos legais, se estritamente necessário.
  • Linguagem: deve ser de fácil compreensão, mas sem utilizar a linguagem utilizada pelos adolescentes entre si. Quando o profissional se expressa com linguagem clara, simples e objetiva, dá um grande passo para facilitar a comunicação e a criação de vínculo afetivo.
  • Estereótipos: estereótipos e preconceitos (“adolescentes são sempre problemáticos” ou “adolescentes são irresponsáveis”) devem ser abandonados. Estão quase sempre relacionados ao conflito de gerações.

Anamnese do Adolescente

A confiança, a troca e o respeito ao modo de ser do adolescente são os principais trunfos do profissional para que o jovem tenha a unidade de saúde como referência de ajuda e dê continuidade ao tratamento.

Além dos componentes tradicionais (queixa principal e duração, história pregressa da moléstia atual, interrogatório complementar, antecedentes pessoais e familiares, vacinação, hábitos e condições de vida), a anamnese do adolescente deve incluir avaliação do bem-estar físico e emocional, saúde biopsicossocial, pontos fortes e comportamentos de risco.

⚠ É preciso estar atento ao fato de que quase sempre a demanda trazida pelo adolescente não é a sua real preocupação. Esta é camuflada até que o jovem sinta-se seguro para expressar o real motivo que o leva a pedir ajuda.

A comunicação centrada no paciente permite estabelecer uma parceria com o jovem, encorajando e facilitando a discussão de questões psicossociais que podem influenciar direta e indiretamente os comportamentos relacionados à saúde. Outros aspectos a considerar:

  • Motivação do adolescente
  • Espaços e posturas que facilitem a expressão de seus valores, conhecimentos, comportamentos, dificuldades e interesses
  • Elementos de troca e reflexão que favoreçam o controle da própria vida
  • Práticas de responsabilização e de participação mais ampla nas decisões que lhe dizem respeito
  • Reconhecimento da totalidade da vida do adolescente
  • Atenção aos seus dilemas, ouvindo, apoiando e acolhendo o adolescente, e exercendo os princípios do respeito, privacidade e confidencialidade

Confidencialidade

Ao se estabelecer uma relação médico-paciente com o adolescente, é essencial discutir as regras de confidencialidade e seus limites. Não é razoável esperar que um adolescente revele informações pessoais, a menos que a confidencialidade possa ser assegurada.

Confidencialidade é a propriedade da informação que não estará disponível ou divulgada a indivíduos, entidades ou processos sem autorização. Em outras palavras, confidencialidade é a garantia do resguardo das informações dadas pessoalmente em confiança e a proteção contra a sua revelação não autorizada.

As questões de confidencialidade precisam ser abordadas tanto com o paciente como com os pais, antes que perguntas sobre tópicos sensíveis sejam feitas ao adolescente durante a anamnese. Em algumas situações, como ideação homicida ou suicida e abuso físico ou sexual, a quebra de sigilo se faz necessária.

Além da confidencialidade, há outras estratégias para se estabelecer uma conexão eficiente com o adolescente:

  • Perguntas abertas: requerem elaboração e explicação da perspectiva do adolescente. Não podem ser respondidas com poucas palavras. Encorajam o adolescente a expressar pensamentos ou preocupações pessoais, evitando que ele se sinta em um interrogatório.
  • Afirmações: são expressões de apreciação pela participação do adolescente. Exemplos: “Eu realmente aprecio sua vontade de ser tão sincero comigo” e “Essa é uma ótima ideia, você realmente sabe como se cuidar”.
  • Reflexões: mostram que se tem uma compreensão precisa da perspectiva e da experiência do adolescente. Podem reafirmar ou parafrasear o que o adolescente disse. São mais eficazes quando ditas sem julgamento e com empatia.
  • Resumos: reúnem vários pensamentos, sentimentos ou preocupações expressados anteriormente pelo adolescente. Podem ser uma forma eficaz de reunir os componentes essenciais da discussão ao se preparar para mudar o foco da coleta de dados para aconselhamento e orientações.

Tempo com Familiares e Adolescente

A família deve ter um espaço no atendimento, respeitadas as regras do sigilo, da privacidade e da concordância do adolescente.

A qualidade do início da entrevista pode afetar todo o seu resultado. Se os pais estão presentes, é interessante se apresentar primeiro ao adolescente — isso passa ao jovem e aos adultos uma mensagem clara de que ele é o paciente. Solicite, em seguida, que o mesmo apresente seus acompanhantes.

Evite começar a entrevista com perguntas como “Por que você está aqui?”. Prefira iniciar de uma maneira mais leve: comente sobre a roupa do jovem ou alguma característica que reflita sua personalidade; sobre o estilo de vida ou interesses, caso já tenha alguma informação; ou sobre eventos atuais — isso ajuda a diminuir a ansiedade e facilita o diálogo.

Esta parte da anamnese inclui:

  • Queixa principal dos pais: é o problema de maior preocupação. A queixa principal do adolescente pode ser idêntica, semelhante ou totalmente diferente. A interação entre pais e adolescentes durante a anamnese pode ser um indicador significativo do funcionamento familiar.
  • Antecedentes pessoais do adolescente: os pais geralmente são mais familiarizados com a história clínica do adolescente — período perinatal, marcos iniciais do desenvolvimento, doenças graves ou crônicas, internações, cirurgias, acidentes, alergias, uso de medicamentos, imunização.
  • Antecedentes familiares: deve incluir idade e estado de saúde dos pais e irmãos. Pesquisar condições médicas genéticas ou familiares (doenças cardíacas, morte súbita, hipertensão, hipercolesterolemia, doenças sistêmicas, transtornos psiquiátricos, alcoolismo, abuso de drogas, distúrbios alimentares). É mais do que uma lista de doenças: fornece informações valiosas sobre o contexto de saúde em que o adolescente vive.
  • Genograma: representação gráfica das relações e da história médica e psicológica de uma família. Difere de uma simples árvore genealógica, pois permite a identificação de padrões repetitivos, hereditários e fatores psicológicos que pontuam as relações.
  • História psicossocial (versão dos pais): pede-se que o acompanhante descreva personalidade, pontos fortes, fraquezas e ajuste geral do adolescente na vida familiar, escola e com colegas.

Tempo a Sós com Familiares

Reunir-se a sós com os pais para uma entrevista inicial é uma abordagem controversa. Entretanto, permite que o profissional obtenha dados específicos sobre a saúde do adolescente e se familiarize com os pais. Desde que o jovem tenha conhecimento de que a entrevista com os pais será realizada, o encontro a sós com os mesmos pode ser útil.

Tempo a Sós com o Adolescente

Os jovens devem ser entrevistados a sós tão logo comecem a apresentar as primeiras modificações físicas e psicológicas que acompanham a puberdade. Cada caso precisa ser avaliado individualmente.

💬 Antes de pedir aos adultos que saiam da sala, sempre pergunte se eles têm alguma preocupação para expressar, e assegure-lhes a possibilidade de conversarem após a entrevista com o adolescente.

Enquanto aguardam, os acompanhantes podem preencher um “questionário para pais”, como o GAPS (Guidelines for Adolescent Prevention Survey), criado pela American Medical Association.

Quando a sós com o adolescente, é importante reafirmar e rever as regras e limites da confidencialidade, explicando que serão feitas perguntas muito pessoais para que se possa compreender a sua saúde como um todo.

A anamnese obtida a sós com o adolescente inclui:

  • Queixa principal do adolescente: alguns adolescentes inicialmente parecem não ter queixas. À medida que o adolescente vai se sentindo confortável e questões “gatilho” são feitas, queixas específicas podem surgir.
  • Interrogatório complementar: revisão dos principais sistemas (cabeça, olhos, nariz e garganta, cardiopulmonar, gastrointestinal, dermatológico, genito-urinário, ginecológico, endocrinológico, musculoesquelético, neurológico, hematológico, psiquiátrico), bem como queixas gerais.
  • História psicossocial — versão do paciente: é a parte mais importante da consulta do adolescente. O HEEADSSS, um sistema criado para organizar a história psicossocial, pode ajudar a estruturar essa abordagem.

Exame Físico do Adolescente

Deve ser realizado pelo médico, respeitando a privacidade do adolescente, e na ocasião mais adequada.

Atenção: antes de iniciar o exame, no caso de adolescente do sexo oposto ao examinador, é recomendável a presença de outra pessoa na sala (acompanhante ou profissional de saúde).

Realizar o exame físico de forma segmentar, cobrindo a região que não está sendo examinada. O exame de genitais deve ser deixado para o final da avaliação ou outro momento oportuno, evitando-se a exposição desnecessária do corpo do adolescente.

Indicações de exame ginecológico completo: início de atividade sexual; suspeita de gravidez; abuso sexual; amenorreia primária ou secundária; dismenorreia resistente a tratamento; vulvovaginite específica ou resistente a tratamento; amenorreia de qualquer duração associada a hirsutismo e galactorreia. Nesses casos, fazer orientação e providenciar encaminhamento ao ginecologista.

Orientações e Prescrição

  • Encorajar o diálogo entre o adolescente e os pais, bem como com a escola e os diversos recursos da comunidade.
  • Incentivar o jovem a fazer escolhas responsáveis de estilos de vida saudáveis.
  • Esclarecer ao adolescente e seus pais os diagnósticos formulados, os exames solicitados e a conduta adotada, transmitindo-lhes segurança e uma parcela adequada de responsabilidade.
  • Não se restringir à queixa que motivou a consulta: tentar encontrar solução para todos os problemas eventualmente detectados.
  • Encaminhar ao especialista quando necessário, sem se esquecer de que é o médico responsável pelo caso.
  • Perguntar se faltou algo a conversar, enfatizar a disponibilidade para diálogo e colocar-se à disposição para eventuais atendimentos e orientações.
  • Deixar claro ao adolescente qual suporte ele pode ter do serviço e dos atendimentos.

Consulta de Retorno e de Seguimento

Cada caso deve ser avaliado individualmente, com programação variável de acordo com a necessidade. Como rotina, orientar:

  • Na fase de estirão do crescimento: consulta de seguimento a cada três ou quatro meses.
  • No período de desaceleração do crescimento: consulta de seguimento a cada seis meses.

Quando a consulta é de seguimento, com último atendimento há mais de seis meses, rever principalmente os dados positivos anteriormente e aqueles passíveis de modificação. Realizar, em toda consulta, exame físico completo (excluir exames de genitais quando desenvolvimento puberal já tiver se completado e não houver queixas).

Referências Bibliográficas

Goldenring JM, Rosen DS. Getting into adolescent heads: an essential update. Contemp Pediatr. v.21, p. 64-92, 2004.

Reato LFN. A Consulta Médica. In: Françoso LA, Mauro AMMF (Org.). Manual de Atenção à Saúde do Adolescente. São Paulo: Secretaria de Saúde, 2006. cap. 1, Seção III, p. 79-83.

Dr. Marcelo Meirelles

CRM MG 45.283

🩺

Formação

Médico Pediatra

⭐ Título de Especialista em Pediatria · SBP e AMB

⭐ Instrutor de Reanimação Neonatal · SBP

👨‍⚕️

Especialidade

Médico Hebiatra

⭐ Título de Especialista em Medicina do Adolescente · SBP e AMB

⭐ Pós-graduação em Psiquiatria na Infância e Adolescência




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