Desenvolvimento psicossocial do adolescente





O desenvolvimento psicossocial positivo na adolescência é resultado de um processo longo e cumulativo influenciado:
– pelo desenvolvimento psicossocial prévio do indivíduo;
– pelas mudanças físicas e cognitivas do período da adolescência;
– pelos contextos sociais e interpessoais em que o jovem vive.

É caracterizado por duas tarefas de desenvolvimento inter-relacionadas e que acontecem simultaneamente:

1. Desenvolvimento de senso de independência: desenvolvimento de competência e autonomia em relação à influência de outras pessoas.

2. Desenvolvimento de senso de interdependência: desenvolvimento de conexões e compromissos com indivíduos e instituições sociais além da família, de maneira cada vez mais madura.

Interdependência é um conceito que rege as relações entre os indivíduos onde um único indivíduo é capaz de, através de seus atos, causar efeitos, positivos e/ou negativos, em toda a sociedade. Ao mesmo tempo, esse mesmo indivíduo, por sua vez, é influenciado pelo todo.

Etapas da adolescência, critério cronológico

De modo genérico, define-se desenvolvimento como um processo dinâmico, de diferenciação e maturação, que ocorre durante toda a vida. Por que então é mais complexo na adolescência?

A adolescência é conceituada como uma fase de desenvolvimento do ser humano situada entre a infância e a idade adulta que, apesar de transitória, é extremamente importante, uma vez que, neste período, são obtidas as características físicas, psicológicas e sociais de adulto. Além disso, a avaliação do desenvolvimento na adolescência reveste-se de maior complexidade, pois existe uma variabilidade individual muito grande.

Na média, sabe-se que as meninas entram na puberdade um a dois anos antes dos meninos, porém a idade e a velocidade com que ocorrem as modificações são extremamente diversas de um indivíduo para outro. Da mesma maneira, cada adolescente responde às demandas e oportunidades da vida de modo pessoal e único.

Adicionalmente, a transição da infância para a idade adulta pode não ocorrer de maneira uniforme e contínua; períodos de crescimento podem ser intercalados com fases de regressão. Apesar destas diferenças, o ponto em comum e que distingue a adolescência, é a transformação. Assumir mudanças na imagem corporal, adotar valores e estilo de vida, conseguir independência dos pais e estabelecer uma identidade própria são as principais tarefas da adolescência.

E, mesmo reconhecendo-se que nessa fase o critério cronológico perde importância, sendo mais relevante o estágio de maturação sexual, para que se possa compreender a evolução destas tarefas, é interessante analisar o desenvolvimento subdividindo-o por idade ou através de etapas:

Adolescência inicial

• dos 10 aos 14 anos

A adolescência inicial é um período marcado pelo rápido crescimento e pela entrada na puberdade.
independência: diminui o interesse pelas atividades com os pais;
imagem corporal: preocupação consigo e com as mudanças puberais; insegurança acerca da aparência;
grupo: relação intensa com amigos do mesmo sexo;
identidade: desenvolvimento da inteligência; aumenta o mundo da fantasia; vocação idealizada; aumenta a necessidade de privacidade; impulsividade.

Adolescência média

• dos 14 aos 17 anos

A adolescência média caracteriza-se pelo desenvolvimento intelectual e pela maior valorização do grupo.
independência: conflito com os pais;
imagem corporal: aceitação do corpo; preocupação em torná-lo mais atraente;
grupo: comportamento conforme valores do grupo; atividade sexual e experimentação;
identidade: desenvolvimento da habilidade intelectual; onipotência; comportamento de risco.

Adolescência tardia ou final

• dos 17 aos 19 anos

Na adolescência tardia consolidam-se as etapas anteriores. Se todas as transformações tiverem ocorrido conforme previsto, incluindo a presença de um suporte familiar e do grupo de iguais, o adolescente estará pronto para as responsabilidades da idade adulta.
independência: reaceitação dos valores parentais;
imagem corporal: aceitação das mudanças puberais;
grupo: valores dos pares são menos importantes; mais tempo em relações íntimas;
identidade: vocação realística e prática; refinamento dos valores sexuais, religiosos e morais; habilidade para assumir compromissos e para aceitar limites.

Adolescência estendida

• dos 19 aos 24 anos

Alguns estudiosos sugerem estender a adolescência até os 24 anos de idade, por questões fisiológicas e socioculturais. Leia mais em Adolescência estendida: até 24 anos de idade.

Limites da adolescência

Biológico:
– Início: início da puberdade;
– Fim: capacidade reprodutiva.

Emocional:
– Início: individuação em relação aos pais;
– Fim: desenvolvimento de senso de identidade.

Cognitivo:
– Início: emergência das operações formais;
– Fim: consolidação das operações formais.

A crescente capacidade para considerar tanto as realidades com as quais se entra em contato, como as que podem ou não existir fisicamente, é chamada de pensamento formal, e utiliza o que para Piaget são as operações formais.

O pensamento formal permite a conceituação de abstrações e de eventos concretos. A capacidade para pensar formalmente não somente aumenta a habilidade do adolescente na resolução de problemas que anteriormente ficavam sem solução, como também contribui para o idealismo típico dessa faixa etária. A capacidade para conceituar o mundo como este poderia ser muitas vezes leva os adolescentes a questionar por que o mundo real não corresponde ao ideal potencial.

Interpessoal:
– Início: aproximação dos pares;
– Fim: capacidade de intimidade.

Social:
– Início: treino de papéis adultos;
– Fim: status de adulto.

Educação:
– Início: início do Ensino Fundamental II (anos finais do Ensino Fundamental, do 6º ao 9º ano);
– Fim: conclusão do Ensino Médio (antigo Curso Colegial, do 1º ao 3º ano).

Legal*:
– Início: 12 anos de idade;
– Fim: 18 anos de idade (maioridade).
* Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Cronológico*:
– Início: 10 anos de idade;
– Fim: 19 anos de idade.
* Ministério da Saúde do Brasil, Organização Mundial de Saúde (OMS).





Puberdade x Desenvolvimento Psicossocial

A entrada na puberdade e o início da fertilidade podem ter efeitos sobre o comportamento. Mudanças na auto-estima foram observadas em garotas a partir dos 11 anos, que se recupera lentamente entre 15-18 anos. Este fato coincide com um aumento da massa corporal e com a transformação do pensamento concreto para o formal.

Para Piaget as transformações emocionais que ocorrem na adolescência dependem das transformações cognitivas, e uma das grandes transformações do estágio de desenvolvimento operatório formal é o surgimento do pensamento hipotético-dedutivo, diferente do estágio operatório concreto, em que a criança apenas raciocina sobre proposições que julgasse verdadeiras, apoiando-se no concreto para isso. O jovem torna-se capaz de raciocinar corretamente sobre proposições em que não acredita, ou ainda não acredita, isto é, pensa e reflete hipoteticamente. Desta forma, adquire a capacidade de ultrapassar, pelo pensamento, situações vividas e a projetar ideias para o futuro.

Estudo mostrou que meninas com menarca antes dos 11 anos tinham maior probabilidade de apresentar comportamentos de risco. No entanto, na idade adulta não houve diferenças no ajuste social em comparação com as meninas que tiveram uma menarca em idade posterior. As meninas que parecem sexualmente maduras, apesar da menor idade cronológica, são mais propensas a se envolverem em relacionamentos amorosos. As relações platônicas não parecem afetadas pelo status de maturidade sexual.

Os níveis de testosterona nos homens aumentam 10-20 vezes durante a adolescência. A testosterona contribui para aumentar o interesse sexual e a competitividade, que pode se estender a áreas de crime e delinquência se não houver construções e orientações sociais efetivas.

Geralmente, a auto-estima aumenta nos homens durante a adolescência. No entanto, meninos com entrada tardia na puberdade apresentam maiores taxas de abuso de substâncias e menor auto-estima.

Facilitando o desenvolvimento psicossocial positivo na adolescência

É difícil imaginar um período de desenvolvimento humano caracterizado por mudanças psicossociais tão intensas quanto na adolescência.

O indivíduo entra na adolescência altamente dependente dos pais no que tange à orientação e governança, e engajados em relacionamentos que, em sua maioria, carecem de intimidade e profundidade.

No final dos anos de adolescência, no entanto, se tudo correr bem, o indivíduo adquire um senso de independência saudável e responsável, além de senso de identidade e a capacidade de desenvolver relacionamentos profundos e significativos com amigos e parceiros românticos.

Embora o desenvolvimento psicossocial positivo seja construído a partir de uma base sólida na infância, as experiências durante os anos da adolescência também são importantes.

Os principais ingredientes para o desenvolvimento psicossocial bem sucedido são:
– um ambiente familiar em que os pais sejam responsivos e apoiem a necessidade de individuação do adolescente;
– envolvimento em uma rede social de pares de sexo oposto e do mesmo sexo, que estejam em uma trajetória de desenvolvimento psicossocial saudável;
– oportunidades para experimentar e explorar novas responsabilidades e relacionamentos.

Responsividade, na psicologia, refere-se a atitudes compreensivas que visam, através do apoio emocional e da bi-direcionalidade na comunicação, favorecer o desenvolvimento da autonomia e da auto-afirmação.

Leia também:

Os três grandes lutos e a Síndrome da Adolescência Normal
Desenvolvendo os sensos de independência e de interdependência


Referências Bibliográficas

• CRAIG, Kanti R.; BIRO, Frank M. Normal Pubertal Physical Growth and Development. In: FISHER, Martin M. et al (Org.). Textbook of Adolescent Health Care. United States of America: American Academy of Pediatrics, 2011. cap. 4, p. 23-31.
• STEINBERG, Laurence; COLLINS, W. Andrew. Adolescent Psychosocial Development and Behavior. In: FISHER, Martin M. et al (Org.). Textbook of Adolescent Health Care. United States of America: American Academy of Pediatrics, 2011. cap. 6, p. 39-44.
• REATO, Lígia de Fátima Nóbrega. Desenvolvimento da Sexualidade. In: FRANÇOSO, Lucimar Aparecida; MAURO, Athenê Maria de Marco França (Org.). Manual de Atenção à Saúde do Adolescente. São Paulo: Secretaria de Saúde, 2006. cap. 6, Seção III, p. 95-105.


• Marcelo Meirelles
– Médico Pediatra
– Especialista em Hebiatria (Medicina do Adolescente)





2 comentários em “Desenvolvimento psicossocial do adolescente”

  1. Qual o ano da publicação? Gostaria de utilizar seu material como referência Bibliográfica.

    • Olá Gisele! As publicações utilizadas como base para elaboração deste texto estão no final do artigo, como referências bibliográficas.

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