Adolescentes, Álcool e Drogas – Cenários que os Pais Precisam Conhecer






Converse com qualquer grupo de adolescentes e você vai ouvir falar de pressão: pressão para ter bom desempenho acadêmico, para entrar numa boa faculdade, para ser bem-sucedido, bonito, popular, para “encontrar seu propósito”. É nesse contexto de demandas crescentes que o álcool e as drogas aparecem — não como rebeldia gratuita, mas como respostas a necessidades reais: descanso, coragem social, pertencimento, alívio. Entender os cenários em que isso acontece é o primeiro passo para agir de forma eficaz.

💡 Cada situação descrita abaixo tem uma lógica interna que faz sentido para o adolescente. Entender essa lógica — em vez de apenas reagir ao comportamento — é o que permite que pais ofereçam alternativas reais, não apenas proibições.

1. O “pré-balada”

Essa prática consiste em consumir grandes quantidades de álcool — e às vezes outras substâncias — antes de uma festa, formatura, evento escolar ou qualquer situação em que o acesso a bebidas será limitado. O objetivo é atingir um nível de intoxicação que se sustente por horas. Acontece no Uber a caminho do evento, na esquina de fora, ou na casa de algum colega cujos pais estão ausentes ou permissivos. O álcool pode ser escondido em garrafinhas de água, latinhas de refrigerante ou termos.

💡 O que fazer: Converse explicitamente sobre o pré-balada e deixe claro que é uma regra inegociável da sua casa. Se seu filho vai a uma festa ou formatura, saiba exatamente o que ele vai fazer nas horas anteriores. Ofereça passar esse tempo junto — jantar, cinema, receber os amigos em casa antes do evento. Se os amigos vierem se arrumar na sua casa, esteja presente.

2. “Trabalhei muito, mereço”

Adolescentes em escolas competitivas frequentemente relatam que a intensidade da semana acadêmica justifica fins de semana de descanso alcoolizado. A lógica é simples: “Se eu trabalhei tanto, mereço me desligar completamente.” Essa crença é reforçada por uma cultura que apresenta o uso recreativo de substâncias como a contrapartida natural da alta performance — e, em alguns casos, pelos próprios pais que permitem festas “desde que não afete as notas”.

💡 O que fazer: Reconheça os esforços do seu filho genuinamente — não minimize. E então ofereça alternativas reais de descanso e recompensa: jantar favorito, sair para algum lugar que ele gosta, receber amigos em casa. Ajude-o a construir um repertório de formas saudáveis de se recuperar — que não envolvam apagar a consciência para “se desligar”.

3. Álcool como muleta social

Muitos adolescentes admitem abertamente que usam álcool para diminuir a timidez e a insegurança em situações sociais — especialmente quando esperam encontrar alguém que os interessa ou quer se aproximar de novos grupos. A substância funciona temporariamente como um atalho para a ansiedade social.

O problema é que, com o tempo, o adolescente passa a depender desse atalho. A sensação de que socializar sem álcool é impossível se instala — e esse é um dos caminhos mais comuns para o desenvolvimento de dependência. Adultos em recuperação frequentemente relatam que passaram os anos formativos atordoados por substâncias e depois precisaram aprender do zero como se relacionar de forma sóbria.

⚠️ O que fazer: Converse com seu filho sobre como é normal sentir-se inseguro em situações sociais novas — todo mundo sente. Explique que a única forma de superar essa insegurança é vivenciá-la sem recorrer a substâncias. Com o tempo e a prática, ela diminui. Mas se o adolescente sempre bebe para afastar o desconforto, o desconforto não diminui — apenas fica escondido, e eventualmente ele vai precisar de álcool para se sentir normal em qualquer situação. É assim que a dependência começa.

4. Substâncias e comportamento sexual

Muitos adolescentes relatam que encontros sexuais acontecem quase exclusivamente sob efeito de álcool ou outras substâncias. A combinação de substâncias e sexualidade na adolescência pode resultar em experiências traumatizantes — psicológica e fisicamente. Isso inclui relações sexuais sem proteção, memórias confusas de momentos emocionalmente significativos e, em situações mais graves, violência sexual. A maioria das experiências sexuais que adolescentes relatam como perturbadoras ou arrependidas envolve álcool.

💡 O que fazer: Fale com seu filho sobre o que você espera para a vida sexual dele: que seja uma escolha feita quando ele estiver pronto, de forma privada, íntima, segura e consensual. Explique que o álcool e outras drogas não apenas suprimem essas qualidades — eles tornam um encontro sexual muito mais propenso a ser inseguro, tanto emocionalmente quanto fisicamente.

5. O armário de medicamentos

Medicamentos prescritos são uma fonte crescente de uso recreativo entre adolescentes. São percebidos como acessíveis, glamourosos e “mais seguros” do que drogas ilícitas — o que é falso. Medicamentos para TDAH, como metilfenidato e anfetaminas, são particularmente valorizados como supostos potenciadores de desempenho acadêmico. Adolescentes sem TDAH que os usam para estudar estão colocando o cérebro em risco real, além de cometer um ato ilegal.

Há ainda relatos de adolescentes com TDAH sendo pressionados a vender suas receitas ou comprimidos para colegas mais velhos.

⚠️ O que fazer: Converse sobre os riscos do uso não prescrito de medicamentos — emocional, neurológico e legal. Monitore os medicamentos prescritos da sua casa e fique atento a desaparecimentos. Se seu filho toma medicação controlada e precisa levá-la à escola, converse com a equipe escolar sobre como guardar com segurança.

6. Jogos de beber

Adolescentes adotam dinâmicas de consumo de álcool popularizadas em ambientes universitários, cujo único objetivo é atingir a intoxicação de forma rápida e intensa. Aguentar mais tempo do que os outros nesses jogos é visto como sinal de força — quando na verdade é um sinal de tolerância crescente, que é um marcador clínico de dependência em desenvolvimento.

O ritmo e a quantidade envolvidos expõem o cérebro adolescente a níveis tóxicos de álcool com frequência alarmante — muitas vezes duas vezes por semana. Isso coloca o jovem em risco elevado de desenvolver alcoolismo, além de aumentar significativamente o risco de intoxicação aguda grave e blackouts — ambos perigosos imediata e a longo prazo.

⚠️ O que fazer: Fale claramente sobre os riscos dos jogos de beber — não apenas para o próprio filho, mas pela exposição ao comportamento extremo dos outros ao redor. Explique que o consumo excessivo de álcool em curto período é a forma mais rápida de desenvolver alcoolismo. E que a “tolerância” que esses jogos treinam não é um talento — é um sintoma.

Nenhuma dessas situações é nova — mas os contextos em que acontecem mudam, as substâncias disponíveis mudam, e a pressão sobre os adolescentes aumenta. Conversar sobre cenários específicos, com linguagem concreta e sem dramatizar, é muito mais eficaz do que uma única grande conversa sobre “drogas são ruins”. Quanto mais seu filho sabe o que esperar — e sabe que pode te ligar em qualquer situação — mais seguro ele está.

Fonte: Adaptado de What Parents Should Know About Teens, Drinking and Drugs, Child Mind Institute (childmind.org). Baseado em: Freedom Institute. Stay Connected: Helping Your Teen Navigate Tough Choices. Última revisão do original: agosto de 2025. Adaptação: adolesc.com.br, maio de 2026.

Dr. Marcelo Meirelles

CRM MG 45.283

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Formação

Médico Pediatra

⭐ Título de Especialista em Pediatria · SBP e AMB

⭐ Instrutor de Reanimação Neonatal · SBP

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Especialidade

Médico Hebiatra

⭐ Título de Especialista em Medicina do Adolescente · SBP e AMB

⭐ Pós-graduação em Psiquiatria na Infância e Adolescência




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