Hipovitaminose D – Insuficiência e Deficiência de Vitamina D





A deficiência de vitamina D é um dos distúrbios nutricionais mais frequentes em todo o mundo — estima-se que 1 bilhão de pessoas sofram de insuficiência ou deficiência dessa vitamina.

No Brasil, embora a maioria da população resida em regiões de adequada exposição solar, a hipovitaminose D é um problema comum e não restrita apenas a idosos e mulheres menopausadas, afetando também crianças e adolescentes.

⚠ A maior disponibilidade da dosagem sérica da vitamina D e a divulgação de seus efeitos extraesqueléticos aumentaram consideravelmente o número de solicitações do exame e prescrições de suplementação — caracterizando uma “pandemia” de hipovitaminose D. A triagem universal não é recomendada pelos principais consensos nacionais e internacionais.

Fisiologia da Vitamina D

O que é a Vitamina D?

Embora definida como vitamina, essa substância é conceitualmente um pró-hormônio (secosteroide) que desempenha papel fundamental na homeostasia do cálcio e no metabolismo ósseo. É encontrada sob duas formas:

  • Ergocalciferol (vitamina D2): forma proveniente de plantas e fungos, formada pela irradiação do ergosterol. Absorvida da dieta no duodeno e jejuno.
  • Colecalciferol (vitamina D3): forma proveniente de fontes animais (peixes gordurosos, vísceras) e também sintetizada na pele pela ação fotoquímica dos raios UVB (290–315 nm), ao converter o 7-deidrocolesterol em pré-vitamina D3 e depois em colecalciferol. As duas formas (D2 e D3) são equivalentes do ponto de vista biológico.

Metabolismo: colecalciferol e ergocalciferol são transportados ao fígado pela proteína ligadora da vitamina D (DBP), onde são hidroxilados no carbono 25 para formar o calcidiol (25-OH-vitamina D) — a forma de depósito, com meia-vida de 2–3 semanas. Em seguida, o calcidiol é transportado aos rins, onde a 1-alfa-hidroxilase forma o calcitriol (1,25-OH-vitamina D) — a forma metabolicamente ativa.

Se houver exposição excessiva aos raios UVB, o organismo converte o 7-deidrocolesterol em metabólitos inativos (lumisterol e taquisterol), impedindo a intoxicação pela vitamina D endógena.

Ação da Vitamina D

Além de sua ação comprovada na mineralização óssea e homeostasia do cálcio, a vitamina D está envolvida na regulação de mais de 1.000 genes. Os principais sítios de ação:

  • Intestino delgado: aumenta a absorção intestinal de cálcio e fósforo
  • Ossos: promove a formação do osso endocondral, estimula a proliferação e diferenciação dos condrócitos e a mineralização da matriz óssea
  • Rins: aumenta a reabsorção tubular renal de cálcio
📋 A ação reconhecida da vitamina D é na saúde óssea. Suas ações extraesqueléticas (diabetes tipo 1, asma, doenças cardiovasculares, neoplasias, entre outras) ainda requerem confirmação em estudos controlados.

Fontes de Vitamina D

A vitamina D é obtida pela síntese cutânea após exposição solar (~90%) e por fontes alimentares (<10%).

Síntese cutânea

10–15 minutos de exposição solar entre 10h e 15h são suficientes para síntese adequada em indivíduos de pele clara, durante primavera, outono e verão.

Fatores que reduzem a síntese: pele escura (melanina como filtro natural), latitude > 35–40°, protetor solar FPS > 30, roupas cobrindo o corpo, ambientes fechados, poluição, tempo nublado.

Alerta sobre exposição solar

A exposição solar deve ser equilibrada com o risco de câncer de pele, especialmente o melanoma. Não existe nível seguro recomendado.

Sugere-se evitar exposição solar direta em lactentes < 6 meses e limitá-la nas demais crianças. A fototerapia neonatal não influencia os níveis séricos de vitamina D (as lâmpadas não emitem UVB).

Fontes Alimentares

Alimento Porção Vitamina D (1 µg = 40 UI)
Óleo de fígado de bacalhau 1 colher de chá 400–1000 UI
Salmão selvagem 100 g 600–1000 UI
Sardinha enlatada 100 g 300 UI
Atum 90 g 230 UI
Salmão criado em piscicultura 100 g 100–250 UI
Iogurte 100 g 90 UI
Fígado de boi 100 g 50 UI
Gema de ovo 1 unidade 25 UI
Fórmulas lácteas fortificadas 1 litro 400 UI
Leite de vaca 1 litro 40 UI
Leite materno 1 litro 20–40 UI
⚠ As fontes alimentares de vitamina D são escassas e não conseguem suprir as necessidades diárias. A síntese cutânea estimulada pela exposição solar é a principal fonte de vitamina D.

Etiologia da Hipovitaminose D

Períodos de crescimento acelerado do esqueleto — lactentes de 0–12 meses e adolescentes de 9–18 anos — são particularmente vulneráveis ao desenvolvimento da hipovitaminose D.

Mecanismo Exemplos
Diminuição da transferência materno-fetal Gestantes com hipovitaminose D; prematuridade
Diminuição da síntese cutânea Exposição solar inadequada; pele escura; protetor solar; roupas cobrindo o corpo; poluição; latitude elevada
Diminuição da ingestão Aleitamento materno exclusivo; lactentes com <1 L/dia de fórmula fortificada; dieta pobre em vitamina D; dieta vegetariana
Diminuição da absorção intestinal Doença celíaca, DII, fibrose cística, síndrome do intestino curto, cirurgia bariátrica
Diminuição da síntese Hepatopatia crônica; nefropatia crônica
Sequestro no tecido adiposo Obesidade
Diminuição da absorção e/ou aumento da degradação (medicamentos) Anticonvulsivantes (fenobarbital, fenitoína, carbamazepina, oxcarbazepina, primidona), corticosteroides, antifúngicos azólicos (cetoconazol), antirretrovirais, colestiramina, orlistat, rifampicina

Manifestações Clínico-Laboratoriais e Radiológicas

A deficiência de vitamina D diminui a absorção intestinal de cálcio e fósforo, levando à elevação do PTH (hiperparatireoidismo secundário), que mobiliza cálcio do osso para restaurar a calcemia — causando redução da mineralização óssea.

Dependendo da gravidade e duração, pode ser:

  • Assintomática
  • Atraso do crescimento, atraso do desenvolvimento, irritabilidade, dores ósseas
  • Quando grave e prolongada: hipocalcemia, hipofosfatemia, hiperfosfatasemia, acentuação do PTH, raquitismo (crianças) ou osteomalácia (adolescentes e adultos)
Manifestações do raquitismo: atraso do crescimento e desenvolvimento motor; atraso da erupção dentária; irritabilidade e sudorese; fronte olímpica; atraso no fechamento das fontanelas; crânio tabes; rosário raquítico (alargamento das junções costo-condrais); alargamento de punhos e tornozelos; sulco de Harrison (atrofia diafragmática); deformidade de membros inferiores (geno varo, geno valgo).

Diagnóstico da Hipovitaminose D

✅ Os principais consensos nacionais e internacionais recomendam a triagem para hipovitaminose D apenas para grupos de risco, não recomendando a triagem universal.

Dosagem de 25-OH-Vitamina D (Calcidiol)

A avaliação do estado nutricional da vitamina D é feita pela dosagem da 25-OH-vitamina D (calcidiol) — a forma mais abundante e de depósito, com meia-vida de 2–3 semanas. A 1,25-OH-vitamina D (calcitriol) não avalia o estado nutricional por ter meia-vida curta (4 horas) e poder apresentar níveis normais ou elevados mesmo na vigência de hipovitaminose D.

⚠ A acurácia dos testes varia entre laboratórios e ensaios — com variações de até 17 ng/mL e variação intra-indivíduos de até 40,3%. O padrão ouro é a cromatografia de alta performance (HPLC) ou a espectrocopia de massa (LC-MS).

Pontos de Corte — Suficiência de Vitamina D em Crianças e Adolescentes

Diagnóstico Global Consensus (2016) Endocrine Society (2011) AAP (2008)
Níveis séricos de 25-OH-vitamina D em ng/mL (1 ng/mL = 2,5 nmol/L)
Suficiência > 20 30–100 21–100
Insuficiência 12–20 21–29 16–20
Deficiência < 12 < 20 < 15
Toxicidade > 100 > 100 > 150

Esses valores não consensuais contribuem para a alta prevalência estimada de hipovitaminose D: estudos usando 30 ng/mL como ponto de corte classificam 52–77% da população como hipovitaminótica; com 20 ng/mL, detectam 18–36%.

Avaliação Bioquímica Complementar

Cálcio, fósforo, magnésio, fosfatase alcalina, proteínas totais e frações e PTH devem ser solicitados se a 25-OH-vitamina D for inferior a 20 ng/mL, para investigar raquitismo.

Exame Estágio 1 Estágio 2 Estágio 3
Cálcio sérico Normal ou ↓ Normal ou ↓ ↓↓
Fósforo sérico Normal ou ↓ ↓↓
Fosfatase alcalina ↑↑ ↑↑↑
Paratormônio (PTH) ↑↑ ↑↑↑
25-OH-vitamina D ↓↓ ↓↓↓

Avaliação Radiológica

Radiografias de mãos e punhos ou joelhos (AP) e de tórax (PA e perfil) devem ser solicitadas quando os achados clínicos e laboratoriais sugerirem raquitismo. Podem evidenciar: alargamento das metáfises com perda de contornos, alargamento das junções costo-condrais, fraturas em “galho verde”, geno varo ou geno valgo e deformidades torácicas.

Tratamento da Hipovitaminose D

Indicado para todos os pacientes com deficiência da vitamina, sintomáticos ou não. Pacientes com insuficiência podem ser tratados se pertencerem a grupos de risco e se medidas gerais (dieta e exposição solar) não puderem ser implementadas.

Regra prática: a dose cumulativa é mais importante do que a frequência. Por exemplo: 1.500 UI/dia = 10.500 UI/semana = 45.000 UI/mês.

Para cada 100 UI de vitamina D suplementada obtém-se um aumento de 0,7–1,0 ng/mL nos níveis séricos — mas essa relação nem sempre é reprodutível.

⚠ A preparação de escolha é o colecalciferol (vitamina D3), metabólito mais ativo do que o ergocalciferol (D2). O uso do calcitriol (1,25-OH-vitamina D) é indicado apenas em situações excepcionais: hipoparatireoidismo, insuficiência renal crônica, raquitismo dependente de vitamina D tipo 1 ou 2, ou má absorção intestinal grave.

Esquemas de Tratamento

Faixa etária Dose diária Dose semanal Dose de manutenção
Global Consensus on Prevention and Management of Nutritional Rickets (2016)
< 1 ano 2.000 UI por 12 semanas Sem recomendação específica ≥ 400 UI/dia
1–12 anos 3.000–6.000 UI por 12 semanas ≥ 600 UI/dia
> 12 anos 6.000 UI por 12 semanas ≥ 600 UI/dia
Endocrine Society Clinical Practice Guidelines (2011)
< 1 ano 2.000 UI por 8–12 semanas 50.000 UI por 6–8 semanas 400–1.000 UI/dia
1–18 anos 600–1.000 UI/dia
> 18 anos 6.000 UI por 6–8 semanas 1.500–2.000 UI/dia

Stoss-Therapy (Doses Elevadas)

Refere-se à administração de doses elevadas de vitamina D por curtos períodos, em situações excepcionais. Repetir a cada 3 meses se necessário. Preferir via oral (vitamina D injetável geralmente não disponível no Brasil).

Faixa etária Dose única Manutenção
Global Consensus (2016)
< 3 meses Não usar stoss-therapy
3–12 meses 50.000 UI VO dose única 400 UI/dia
1–12 anos 150.000 UI VO dose única 600 UI/dia
> 12 anos 300.000 UI VO dose única

Suplementos de Cálcio

Indicados nos pacientes com raquitismo ou com ingestão insuficiente de cálcio. Prescrever por 2–4 semanas e reavaliar a necessidade de manutenção.

Preparação Teor de cálcio Indicação Dose
Carbonato de cálcio 400 mg Ca/g Escolha padrão — ingerir junto com as refeições 30–80 mg/Kcal/dia de cálcio elementar VO 8/8h
Citrato de cálcio 211 mg Ca/g Acloridria ou uso de inibidores da bomba de prótons 30–80 mg/Kcal/dia de cálcio elementar VO 8/8h
Gluconato de cálcio 90 mg Ca/g Tetania ou convulsão (emergência) 10–20 mg/Kcal/dose EV lento em 5–15 minutos

Monitoramento do Tratamento

  • 25-OH-vitamina D: a cada 3 meses até atingir valores superiores a 20 ng/mL ou 30 ng/mL (conforme critério adotado)
  • Cálcio, fósforo, magnésio, fosfatase alcalina e PTH: se houver alteração bioquímica ou raquitismo inicial, solicitar trimestralmente junto com a 25-OH-vitamina D
  • Radiografias de mãos/punhos ou joelhos: solicitar 1–3 meses após o início do tratamento para monitorar a cura das lesões radiológicas

Intoxicação pela Vitamina D

Surge quando os níveis séricos são superiores a 100 ng/mL (> 250 nmol/L), associados a hipercalcemia, hipercalciúria e supressão do PTH.

O uso terapêutico na dose e duração recomendadas é seguro, com risco praticamente ausente. Situações que aumentam o risco:

  • Doenças granulomatosas (tuberculose, infecções fúngicas crônicas)
  • Alguns linfomas
  • Síndrome de Williams
  • Vitaminas manipuladas com erro de dose

Manifestações clínicas — decorrentes da hipercalcemia e hipercalciúria: náusea, vômito, dor abdominal, poliúria, polidipsia, constipação intestinal, calcificação ectópica, nefrolitíase e depressão do sistema nervoso central.

🚨 Tratamento da intoxicação: suspensão da reposição de vitamina D + hidratação venosa + diuréticos + corticosteroides.

Prevenção da Hipovitaminose D

A preparação de escolha para prevenção é o colecalciferol (vitamina D3). Não existem evidências científicas que apoiem a suplementação rotineira para a população em geral.

Grupo Dose recomendada Indicação
Gestantes e lactantes 600–2.000 UI/dia Assegurar que quantidade suficiente de vitamina D cruze a placenta (especialmente no 3º trimestre) e para mulheres em aleitamento materno
Crianças < 1 ano 400 UI/dia Crianças em aleitamento materno exclusivo (iniciar logo após o nascimento; prematuros: quando peso > 1.500 g e houver tolerância oral);
Crianças com < 1.000 mL/dia de fórmula láctea fortificada;
Crianças e adolescentes que não ingerem ≥ 600 UI/dia de vitamina D na dieta;
Crianças e adolescentes sem exposição solar regular
Crianças > 1 ano e adolescentes 600 UI/dia
Grupos de risco 600–1.800 UI/dia Dieta estritamente vegetariana; obesidade; hepatopatia ou nefropatia crônica; má absorção intestinal (doença celíaca, Crohn, fibrose cística, cirurgia bariátrica); hiperparatireoidismo; doenças granulomatosas; uso de anticonvulsivantes, corticoides, cetoconazol, antirretrovirais, colestiramina, orlistat, rifampicina
  • Estimular a prática de atividades ao ar livre — sem consenso sobre duração, horário e frequência ideal devido ao risco de câncer de pele
  • Estimular o consumo regular de alimentos ricos em vitamina D — salmão selvagem, sardinha, atum, óleo de fígado de bacalhau, iogurte, gema de ovo
✅ A prevenção e o tratamento da hipovitaminose D devem seguir as orientações dos consensos internacionais, com indicação individualizada conforme faixa etária, fatores de risco e características clínicas de cada paciente.

Referência

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Endocrinologia. Hipovitaminose D em Pediatria: Recomendações para o Diagnóstico, Tratamento e Prevenção. Dezembro de 2016.

Dr. Marcelo Meirelles

CRM MG 45.283

🩺

Formação

Médico Pediatra

⭐ Título de Especialista em Pediatria · SBP e AMB

⭐ Instrutor de Reanimação Neonatal · SBP

👨‍⚕️

Especialidade

Médico Hebiatra

⭐ Título de Especialista em Medicina do Adolescente · SBP e AMB

⭐ Pós-graduação em Psiquiatria na Infância e Adolescência




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