Um adolescente chegou ao consultório da Dra. Marianne Chai para tratamento de dependência. Ele havia começado a tomar uma planta em forma de chá para ajudar com a ansiedade — algo que comprou facilmente, sem receita, em uma loja. Terminou internado em síndrome de abstinência de opioides. A planta era o kratom, e a história dele está longe de ser um caso isolado.
O que é o kratom
O kratom é uma substância extraída das folhas de uma árvore nativa do Sudeste Asiático (Mitragyna speciosa). Seu efeito farmacológico depende da dose: em doses baixas, age como estimulante — com efeitos comparáveis aos de medicamentos usados no tratamento do TDAH; em doses maiores, age como opioide, produzindo euforia e alívio da dor.
É vendido em pó — que pode ser encapsulado ou preparado como chá — e, em alguns países, existem até bares especializados em bebidas à base de kratom. O composto ativo mitragynina interage com receptores opioides no cérebro. Outro composto, o 7-α-hidroximitragynina, potencializa ainda mais esse efeito quando consumido em quantidades maiores.
Por que adolescentes estão usando
O Dr. Mike Milham, psiquiatra infantil e adolescente, observa que estudantes do ensino médio e da faculdade estão cercados de kratom hoje em dia — em lojas e na internet. A lógica de uso é previsível: o efeito estimulante inicial ajuda a estudar mais e a aliviar a ansiedade. “Inicialmente ajuda nas viradas de noite estudando e com o estresse”, diz o Dr. Milham. “Mas aí você fica preso.”
O efeito eufórico do aspecto opioide é onde o perigo real está. Uma vez que o usuário começa a experimentar esse nível mais profundo de efeito, o risco de dependência cresce rapidamente — e de forma silenciosa, porque a substância não é percebida como “droga de verdade”.
Por que a dependência de kratom é especialmente difícil de tratar
O tratamento da dependência de kratom apresenta complicações que a maioria dos médicos não está preparada para enfrentar. A substância contém vários compostos além da mitragynina — alguns ainda não completamente identificados. Entre esses compostos, parece haver algo que age de forma semelhante a um benzodiazepínico (medicamento ansiolítico), além do efeito opioide.
O problema é que quando se trata a abstinência com medicamentos padrão para opioides — como metadona ou buprenorfina — eles agem sobre o efeito opioide, mas não sobre os outros compostos. O paciente pode ficar tão ansioso durante a abstinência que abandona o tratamento. “Simplesmente tratar o efeito opioide muitas vezes não é suficiente”, alerta o Dr. Seitz.
Sinais de dependência ou abstinência
Segundo a Dra. Chai, os sintomas de abstinência de kratom incluem:
- Coriza intensa
- Dores musculares
- Dores articulares e movimentos espasmódicos involuntários
- Oscilações de humor intensas
- Depressão e ansiedade
- Irritabilidade e explosividade
- Tremores, calafrios, sudorese, pupilas contraídas e arrepios — típicos da abstinência de opioides
O que os pais podem fazer
O Dr. Milham tem uma mensagem direta para os pais: “Eduque-se — e não se deixe enganar se seu filho dispensar suas preocupações dizendo que é apenas um chá, que é legal e vendido em lojas.”
A conversa com seu filho sobre kratom não deve ser apenas sobre por que ele deve parar — deve incluir uma pergunta genuína: por que ele está usando? O kratom frequentemente entra na vida de adolescentes como solução para ansiedade, dificuldade de concentração ou pressão acadêmica. Entender o que a substância está fazendo para ele abre o caminho para encontrar alternativas mais saudáveis.
Se o uso se revelar difícil de interromper, ou se houver sinais de abstinência, a avaliação por um especialista em dependência é necessária — e urgente. O kratom pode parecer um chá inocente. Não é.

