Piercing na Adolescência – Riscos, Segurança e Orientações






O lóbulo da orelha é o local mais comum para piercing — mas está longe de ser o único. Pesquisas mostram que cerca de 1 em cada 4 adolescentes tem um piercing em algum lugar além do lóbulo. Língua, lábios, nariz, sobrancelha, mamilo, umbigo e genitais são regiões frequentemente perfuradas.

Entre pessoas que fazem piercings além do lóbulo da orelha, aproximadamente 1 em cada 3 apresenta alguma complicação. Conhecer os riscos é o primeiro passo para uma decisão mais segura.

Esta página é baseada no relatório clínico da Academia Americana de Pediatria (AAP) sobre tatuagens, piercings e escarificação em adolescentes e jovens adultos, adaptado ao contexto brasileiro.

Complicações Associadas ao Piercing

Infecção local

Sempre que a barreira protetora da pele é rompida, há risco de infecção por bactérias como Staphylococcus e Streptococcus. O umbigo é o local mais propenso a infecções, por sua forma anatômica que dificulta a circulação de ar e a higiene. Infecções locais geralmente respondem bem à higiene adequada e a antibióticos tópicos ou orais. O piercing normalmente não precisa ser removido durante o tratamento — sua retirada pode fechar o orifício e dificultar a drenagem.

Infecção sistêmica (corrente sanguínea)

Equipamentos contaminados ou reutilizados podem transmitir vírus e bactérias pela corrente sanguínea, incluindo hepatite B, hepatite C e tétano. Por isso, é essencial estar com a vacinação em dia — especialmente hepatite B e dT/dTpa — antes de qualquer procedimento de piercing.

Trauma dental e oral

Piercings na língua são a principal causa de fraturas dentárias relacionadas a piercing. Adornos nos lábios ou na língua também podem causar problemas gengivais, desgaste do esmalte dentário e, se soltos, serem engolidos. Em casos mais graves, o osso da mandíbula pode ser afetado, exigindo cirurgia oral. Infecções na boca ou nos lábios podem causar dificuldades para falar, mastigar ou engolir, além de edema que pode comprometer a via aérea.

Reações alérgicas

A alergia ao níquel é uma das complicações mais comuns e potencialmente sérias do piercing. Joias contendo níquel devem ser evitadas — e atenção: algumas joias de ouro também contêm níquel. A reação geralmente exige a retirada da joia. Joias de baixa qualidade, frequentemente compradas por adolescentes com orçamento limitado, podem causar os mesmos problemas.

Materiais seguros para piercings novos: titânio implante-grau, aço cirúrgico implante-grau, ouro 14k ou 18k sem níquel, nióbio e vidro borossilicato. Evite plástico, aço inoxidável comum e acrílico durante a cicatrização.

Problemas específicos por localização

Localização Riscos específicos Tempo de cicatrização
Lóbulo da orelha Rasgos por tração de brincos, queloides, infecção 6–8 semanas
Cartilagem (helix, tragus, etc.) Infecção por Pseudomonas, cicatrização lenta, queloides 6–12 meses
Nariz Infecção, cicatrização lenta, obstrução nasal 4–6 meses
Sobrancelha Rejeição do piercing, cicatrizes visíveis 6–9 meses
Língua Fraturas dentárias, infecção oral, edema de vias aéreas 4–6 semanas
Lábio Danos gengivais, desgaste de esmalte dentário 6–8 semanas
Umbigo Infecção frequente, cicatrização muito lenta, irritação por roupas Até 12 meses
Mamilo Mastite, infecção, pode interferir na amamentação futura 6–12 meses
Genitais Risco de lesão, ruptura de preservativo, infecção por ISTs Variável (até 6 meses)

Rasgos e acidentes

Cortes e rasgos em piercings são comuns — especialmente em orelhas — e podem ocorrer por quedas, esportes de contato, acidentes e tração acidental da joia. Para evitar cicatriz permanente ou deformidade, lesões por rasgamento devem ser avaliadas e suturadas nas primeiras 12 a 24 horas.

Formação de queloides

Queloides são crescimentos excessivos de tecido fibroso que podem surgir após traumas na pele — inclusive piercings. Além de preocupações estéticas, causam prurido e sensibilidade. As opções de tratamento incluem excisão cirúrgica, injeções de corticosteroides, crioterapia, curativos compressivos e laser. Pessoas com tendência a queloides provavelmente não devem fazer piercings.

⚠ Adolescentes com doenças crônicas (como diabetes mellitus) ou em uso de corticosteroides têm risco aumentado de complicações. Nesses casos, consulte o pediatra ou médico de família antes de qualquer piercing.

Piercing em Menores de Idade — Contexto Brasileiro

No Brasil, assim como nas tatuagens, a regulamentação de piercings em menores de 18 anos varia por estado e município. Não existe uma lei federal única e específica para o tema. O que se aplica de forma geral:

  • A maioria dos estúdios sérios exige autorização dos pais ou responsáveis legais para menores de 18 anos, com base nos princípios gerais do ECA e do direito civil
  • A fiscalização sanitária dos estúdios de piercing é responsabilidade da Vigilância Sanitária municipal ou estadual (VISA)
  • Piercings realizados fora de estabelecimentos licenciados — em casa ou por amadores — representam risco significativamente maior de infecção e complicações

Como Escolher um Estúdio com Segurança

  • O estúdio possui Alvará Sanitário emitido pela VISA municipal ou estadual
  • O profissional lava as mãos com sabão germicida e usa luvas descartáveis novas antes de cada procedimento
  • Todos os instrumentos são esterilizados em autoclave ou são descartáveis de uso único — verificar que o embalado está íntegro antes de ser aberto na sua frente
  • As joias usadas são novas, do tamanho adequado para o local, e feitas de material biocompatível (titânio implante-grau, aço cirúrgico implante-grau ou ouro sem níquel)
  • O profissional oferece orientações pós-procedimento por escrito
  • Pistolas de piercing não são esterilizáveis adequadamente entre usos — prefira sempre procedimentos realizados com agulha estéril descartável
✅ Antes do piercing, certifique-se de que a vacinação está atualizada — especialmente hepatite B e tétano (dT/dTpa).

Cuidados Pós-Piercing

  • Limpar o piercing duas vezes ao dia com solução salina isotônica (soro fisiológico 0,9%) — sem girar a joia durante a limpeza
  • Não usar álcool, água oxigenada, iodo ou antibióticos tópicos sem orientação médica — podem irritar o tecido e atrasar a cicatrização
  • Não mexer, girar nem tocar desnecessariamente no piercing com as mãos
  • Evitar piscinas, mar e banheiras durante o período de cicatrização
  • Usar roupas que não pressionem nem friccione o local piercing — especialmente no umbigo
  • Não trocar a joia antes da cicatrização completa

Sinais de Infecção — Quando Procurar Atendimento

🚨 Procure o pediatra ou médico de família se houver:

Vermelhidão excessiva ou que se espalha ao redor do local · Calor e edema aumentando após os primeiros dias · Secreção com odor desagradável, espessa ou esverdeada · Sangramento prolongado · Febre · Dor intensa e crescente

A joia geralmente não precisa ser removida em caso de infecção local — sua retirada pode fechar o orifício e dificultar a drenagem. O profissional de saúde vai orientar o melhor manejo.

Para Pais e Profissionais de Saúde

Compreender as complicações do piercing ajuda pais e adolescentes a tomarem decisões mais conscientes juntos. Às vezes é útil conversar sobre o que está por trás do desejo de fazer um piercing — como expressão de identidade, pertencimento a um grupo ou autonomia sobre o próprio corpo. Conversas abertas e sem julgamento sobre os prós, contras e intenções são mais eficazes do que proibições unilaterais.

  • Na consulta, pergunte sobre piercings de forma naturalizada — especialmente em piercings em regiões genitais ou múltiplos piercings, que podem abrir diálogo sobre saúde sexual e comportamentos de risco
  • Assim como nas tatuagens, diferencie modificação corporal como expressão de identidade de comportamentos que podem ser sinal de sofrimento psíquico ou autolesão não suicida
  • Adolescentes com doenças crônicas, imunossupressão ou em uso de corticosteroides devem ser orientados a consultar o médico antes de qualquer procedimento
  • Piercings em cartilagem (helix, tragus, concha) têm risco maior de infecção por Pseudomonas aeruginosa — especialmente quando feitos com pistola — e podem evoluir para pericondrite, complicação grave que requer antibioticoterapia sistêmica
Fontes:

AAP Committee on Adolescence. Adolescent and Young Adult Tattooing, Piercing, and Scarification. Pediatrics. 2017;140(4):e20171962.

Adaptado de: HealthyChildren.org — Body Piercings, Teens & Potential Health Risks. American Academy of Pediatrics, 2021. Disponível em: healthychildren.org.

ANVISA. Regulamentação de serviços de estética e embelezamento. Brasília: ANVISA. Disponível em: gov.br/anvisa.

Dr. Marcelo Meirelles

CRM MG 45.283

🩺

Formação

Médico Pediatra

⭐ Título de Especialista em Pediatria · SBP e AMB

⭐ Instrutor de Reanimação Neonatal · SBP

👨‍⚕️

Especialidade

Médico Hebiatra

⭐ Título de Especialista em Medicina do Adolescente · SBP e AMB

⭐ Pós-graduação em Psiquiatria na Infância e Adolescência




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