O lóbulo da orelha é o local mais comum para piercing — mas está longe de ser o único. Pesquisas mostram que cerca de 1 em cada 4 adolescentes tem um piercing em algum lugar além do lóbulo. Língua, lábios, nariz, sobrancelha, mamilo, umbigo e genitais são regiões frequentemente perfuradas.
Esta página é baseada no relatório clínico da Academia Americana de Pediatria (AAP) sobre tatuagens, piercings e escarificação em adolescentes e jovens adultos, adaptado ao contexto brasileiro.
Complicações Associadas ao Piercing
Infecção local
Sempre que a barreira protetora da pele é rompida, há risco de infecção por bactérias como Staphylococcus e Streptococcus. O umbigo é o local mais propenso a infecções, por sua forma anatômica que dificulta a circulação de ar e a higiene. Infecções locais geralmente respondem bem à higiene adequada e a antibióticos tópicos ou orais. O piercing normalmente não precisa ser removido durante o tratamento — sua retirada pode fechar o orifício e dificultar a drenagem.
Infecção sistêmica (corrente sanguínea)
Equipamentos contaminados ou reutilizados podem transmitir vírus e bactérias pela corrente sanguínea, incluindo hepatite B, hepatite C e tétano. Por isso, é essencial estar com a vacinação em dia — especialmente hepatite B e dT/dTpa — antes de qualquer procedimento de piercing.
Trauma dental e oral
Piercings na língua são a principal causa de fraturas dentárias relacionadas a piercing. Adornos nos lábios ou na língua também podem causar problemas gengivais, desgaste do esmalte dentário e, se soltos, serem engolidos. Em casos mais graves, o osso da mandíbula pode ser afetado, exigindo cirurgia oral. Infecções na boca ou nos lábios podem causar dificuldades para falar, mastigar ou engolir, além de edema que pode comprometer a via aérea.
Reações alérgicas
A alergia ao níquel é uma das complicações mais comuns e potencialmente sérias do piercing. Joias contendo níquel devem ser evitadas — e atenção: algumas joias de ouro também contêm níquel. A reação geralmente exige a retirada da joia. Joias de baixa qualidade, frequentemente compradas por adolescentes com orçamento limitado, podem causar os mesmos problemas.
Problemas específicos por localização
| Localização | Riscos específicos | Tempo de cicatrização |
|---|---|---|
| Lóbulo da orelha | Rasgos por tração de brincos, queloides, infecção | 6–8 semanas |
| Cartilagem (helix, tragus, etc.) | Infecção por Pseudomonas, cicatrização lenta, queloides | 6–12 meses |
| Nariz | Infecção, cicatrização lenta, obstrução nasal | 4–6 meses |
| Sobrancelha | Rejeição do piercing, cicatrizes visíveis | 6–9 meses |
| Língua | Fraturas dentárias, infecção oral, edema de vias aéreas | 4–6 semanas |
| Lábio | Danos gengivais, desgaste de esmalte dentário | 6–8 semanas |
| Umbigo | Infecção frequente, cicatrização muito lenta, irritação por roupas | Até 12 meses |
| Mamilo | Mastite, infecção, pode interferir na amamentação futura | 6–12 meses |
| Genitais | Risco de lesão, ruptura de preservativo, infecção por ISTs | Variável (até 6 meses) |
Rasgos e acidentes
Cortes e rasgos em piercings são comuns — especialmente em orelhas — e podem ocorrer por quedas, esportes de contato, acidentes e tração acidental da joia. Para evitar cicatriz permanente ou deformidade, lesões por rasgamento devem ser avaliadas e suturadas nas primeiras 12 a 24 horas.
Formação de queloides
Queloides são crescimentos excessivos de tecido fibroso que podem surgir após traumas na pele — inclusive piercings. Além de preocupações estéticas, causam prurido e sensibilidade. As opções de tratamento incluem excisão cirúrgica, injeções de corticosteroides, crioterapia, curativos compressivos e laser. Pessoas com tendência a queloides provavelmente não devem fazer piercings.
Piercing em Menores de Idade — Contexto Brasileiro
No Brasil, assim como nas tatuagens, a regulamentação de piercings em menores de 18 anos varia por estado e município. Não existe uma lei federal única e específica para o tema. O que se aplica de forma geral:
- A maioria dos estúdios sérios exige autorização dos pais ou responsáveis legais para menores de 18 anos, com base nos princípios gerais do ECA e do direito civil
- A fiscalização sanitária dos estúdios de piercing é responsabilidade da Vigilância Sanitária municipal ou estadual (VISA)
- Piercings realizados fora de estabelecimentos licenciados — em casa ou por amadores — representam risco significativamente maior de infecção e complicações
Como Escolher um Estúdio com Segurança
- O estúdio possui Alvará Sanitário emitido pela VISA municipal ou estadual
- O profissional lava as mãos com sabão germicida e usa luvas descartáveis novas antes de cada procedimento
- Todos os instrumentos são esterilizados em autoclave ou são descartáveis de uso único — verificar que o embalado está íntegro antes de ser aberto na sua frente
- As joias usadas são novas, do tamanho adequado para o local, e feitas de material biocompatível (titânio implante-grau, aço cirúrgico implante-grau ou ouro sem níquel)
- O profissional oferece orientações pós-procedimento por escrito
- Pistolas de piercing não são esterilizáveis adequadamente entre usos — prefira sempre procedimentos realizados com agulha estéril descartável
Cuidados Pós-Piercing
- Limpar o piercing duas vezes ao dia com solução salina isotônica (soro fisiológico 0,9%) — sem girar a joia durante a limpeza
- Não usar álcool, água oxigenada, iodo ou antibióticos tópicos sem orientação médica — podem irritar o tecido e atrasar a cicatrização
- Não mexer, girar nem tocar desnecessariamente no piercing com as mãos
- Evitar piscinas, mar e banheiras durante o período de cicatrização
- Usar roupas que não pressionem nem friccione o local piercing — especialmente no umbigo
- Não trocar a joia antes da cicatrização completa
Sinais de Infecção — Quando Procurar Atendimento
Vermelhidão excessiva ou que se espalha ao redor do local · Calor e edema aumentando após os primeiros dias · Secreção com odor desagradável, espessa ou esverdeada · Sangramento prolongado · Febre · Dor intensa e crescente
A joia geralmente não precisa ser removida em caso de infecção local — sua retirada pode fechar o orifício e dificultar a drenagem. O profissional de saúde vai orientar o melhor manejo.
Para Pais e Profissionais de Saúde
Compreender as complicações do piercing ajuda pais e adolescentes a tomarem decisões mais conscientes juntos. Às vezes é útil conversar sobre o que está por trás do desejo de fazer um piercing — como expressão de identidade, pertencimento a um grupo ou autonomia sobre o próprio corpo. Conversas abertas e sem julgamento sobre os prós, contras e intenções são mais eficazes do que proibições unilaterais.
- Na consulta, pergunte sobre piercings de forma naturalizada — especialmente em piercings em regiões genitais ou múltiplos piercings, que podem abrir diálogo sobre saúde sexual e comportamentos de risco
- Assim como nas tatuagens, diferencie modificação corporal como expressão de identidade de comportamentos que podem ser sinal de sofrimento psíquico ou autolesão não suicida
- Adolescentes com doenças crônicas, imunossupressão ou em uso de corticosteroides devem ser orientados a consultar o médico antes de qualquer procedimento
- Piercings em cartilagem (helix, tragus, concha) têm risco maior de infecção por Pseudomonas aeruginosa — especialmente quando feitos com pistola — e podem evoluir para pericondrite, complicação grave que requer antibioticoterapia sistêmica
AAP Committee on Adolescence. Adolescent and Young Adult Tattooing, Piercing, and Scarification. Pediatrics. 2017;140(4):e20171962.
Adaptado de: HealthyChildren.org — Body Piercings, Teens & Potential Health Risks. American Academy of Pediatrics, 2021. Disponível em: healthychildren.org.
ANVISA. Regulamentação de serviços de estética e embelezamento. Brasília: ANVISA. Disponível em: gov.br/anvisa.


