Três em cada dez estudantes brasileiros de 13 a 17 anos relatam sentir-se tristes sempre ou na maior parte do tempo, segundo dados do IBGE. O número, isolado, já preocuparia qualquer pai ou educador — mas ele ganha outra dimensão quando cruzado com um segundo dado: o uso excessivo de plataformas como Instagram e TikTok tem sido apontado, de forma cada vez mais consistente, como fator agravante de ansiedade, depressão e baixa autoestima entre adolescentes.

O que os dados mostram
A pesquisa do IBGE indica que cerca de 30% dos estudantes entre 13 e 17 anos relatam se sentir tristes na maior parte do tempo ou o tempo todo. Não se trata de uma tristeza pontual, ligada a um evento específico, mas de um estado emocional persistente — exatamente o tipo de sinal que costuma anteceder quadros de ansiedade e depressão quando não é identificado e acompanhado.
O Relatório Mundial da Felicidade 2026, divulgado pela ONU, reforça essa relação numa escala global: o relatório aponta que o consumo passivo de conteúdo guiado por algoritmos — aquele em que o usuário apenas rola o feed, sem produzir ou interagir de forma ativa — está associado a piora do bem-estar entre adolescentes, com impacto mais acentuado sobre meninas.
Por que o consumo passivo pesa mais do que o tempo de tela
Nem toda hora de tela tem o mesmo efeito
Uma hora conversando por vídeo com amigos e uma hora rolando feed sem interagir não têm o mesmo impacto emocional, mesmo somando o mesmo tempo de tela. O consumo passivo — assistir, comparar, rolar — tende a alimentar comparação social constante, enquanto o uso ativo e social da tecnologia tem efeito bem menos associado a sintomas depressivos.
O algoritmo não escolhe o que é bom para o adolescente
Plataformas como Instagram e TikTok são otimizadas para manter o usuário na tela pelo maior tempo possível — não para proteger seu bem-estar emocional. Isso significa que o conteúdo entregue tende a ser o que gera mais engajamento, o que nem sempre coincide com o que é saudável de se consumir repetidamente: corpos idealizados, vidas aparentemente perfeitas, validação social medida em curtidas e comentários.
Por que o impacto é maior em meninas
O impacto mais acentuado sobre meninas, apontado pelo relatório da ONU, é consistente com outros estudos internacionais sobre o tema. Parte da explicação está em como o conteúdo voltado a esse público costuma girar em torno de aparência física e comparação corporal — um terreno particularmente sensível durante a puberdade, período em que a relação com o próprio corpo já está em transformação e mais vulnerável a influências externas.
Sinais de alerta que pais e cuidadores podem observar
Nem todo adolescente vai verbalizar que está mal — muitas vezes, o comportamento fala antes das palavras. Alguns sinais que merecem atenção redobrada:
- Queda perceptível no interesse por atividades que antes traziam prazer
- Isolamento social, inclusive dentro de casa
- Mudanças bruscas de humor, irritabilidade constante ou apatia
- Alterações no sono e no apetite
- Comentários recorrentes de autocrítica em relação ao corpo ou à aparência
- Uso de tela que persiste mesmo quando o próprio adolescente reconhece que “faz mal”
O que ajuda, na prática
Trocar quantidade por qualidade de uso
Em vez de focar apenas em reduzir o número de horas de tela — o que costuma gerar resistência e conflito —, vale conversar sobre o tipo de uso: incentivar interações ativas (conversar, criar, compartilhar com propósito) e questionar juntos o consumo passivo prolongado, sem transformar isso em vigilância constante.
Manter a conversa aberta, sem julgamento
Perguntar “como você se sente depois de passar um tempo no Instagram?” costuma abrir mais espaço de reflexão do que “você fica muito tempo no celular”. A diferença está em investigar o efeito emocional junto com o adolescente, em vez de apenas cobrar o comportamento.
Buscar apoio profissional diante de sinais persistentes
Quando a tristeza, a ansiedade ou o isolamento persistem por semanas — e não apenas em dias ruins pontuais —, é hora de procurar avaliação com pediatra, hebiatra ou profissional de saúde mental. Diagnóstico e acompanhamento precoces fazem diferença real no percurso do adolescente, e buscar ajuda não é sinal de fracasso da família — é cuidado.


