Maconha na Adolescência Afeta a Inteligência?






Um estudo de longo prazo que acompanhou mil pessoas na Nova Zelândia chegou a uma conclusão que chamou atenção: adolescentes que se tornaram dependentes de maconha antes dos 18 anos e continuaram usando intensamente perderam, em média, 8 pontos de QI até os 38 anos. A pergunta que muitos pais fazem desde então é simples — mas a resposta é mais complexa do que parece: fumar maconha na adolescência prejudica a inteligência?

💡 Contexto importante: os 8 pontos de perda de QI foram observados apenas no subgrupo mais extremo do estudo — 19 pessoas diagnosticadas como clinicamente dependentes de maconha em pelo menos duas avaliações. Usuários ocasionais, ou mesmo habituais sem dependência clínica, não apresentaram a mesma queda. O dado é real, mas precisa ser lido com precisão.

Por que a adolescência é a janela de maior risco

O achado mais significativo do estudo não foi a perda de QI em si — foi quando o uso começou. Pessoas que iniciaram o uso intenso de maconha após a adolescência não apresentaram a mesma queda no desempenho cognitivo. Isso aponta para algo fundamental: o cérebro adolescente é diferente do cérebro adulto, e essa diferença importa muito.

O cérebro humano continua em desenvolvimento até por volta dos 25 anos. Durante a adolescência, ele está ativamente formando e podando conexões neurais com base nos padrões de uso e nas experiências vividas. É um período de alta plasticidade — o que significa que é altamente responsivo tanto a influências positivas quanto a influências negativas. O que afeta o cérebro nesse período tem consequências que vão além do que o mesmo estímulo causaria num cérebro já amadurecido.

⚠️ O cérebro adolescente é especialmente vulnerável a substâncias psicoativas justamente porque está em construção. O THC — o principal composto psicoativo da maconha — interfere no sistema endocanabinoide, que desempenha papel crítico no desenvolvimento cerebral. Esse é o mecanismo biológico por trás do risco diferenciado para quem começa antes dos 18 anos.

O que está por trás do uso — e o que isso revela

O Dr. Harold Koplewicz, psiquiatra infantil e fundador do Child Mind Institute, levanta uma questão que vai além da maconha em si: não é possível saber, com os dados do estudo, se a perda cognitiva vem diretamente da substância ou do que o adolescente deixou de fazer enquanto estava usando — estudar menos, conviver com grupos de baixo estímulo intelectual, se desengajar das atividades que constroem o cérebro.

Mas há outra camada que ele considera ainda mais importante: por que esses adolescentes se tornaram dependentes de maconha? A resposta, em muitos casos, é que estavam usando a substância para lidar com algo que não conseguiam nomear — ansiedade, depressão, TDAH não tratado, dificuldades de aprendizagem. A maconha funcionava como automedicação para um sofrimento real, que nunca recebeu atenção adequada.

💡 50% de todos os transtornos psiquiátricos têm início antes dos 14 anos, e 75% antes dos 24. Adolescentes com transtornos não tratados têm muito mais chance de usar substâncias como forma de se regularem emocionalmente. Tratar o transtorno é, também, prevenir o uso de substâncias.

O custo invisível dos transtornos não tratados

O Dr. Koplewicz faz um argumento que merece atenção especial: o debate público costuma se concentrar nos riscos do uso de maconha — e raramente discute o custo igualmente sério dos transtornos mentais que ficam sem tratamento. Quando uma criança ou adolescente com ansiedade grave, depressão ou TDAH não recebe ajuda, o resultado é frequentemente abandono escolar, uso de substâncias, dificuldades na vida adulta e sofrimento prolongado.

Transtornos mentais não tratados são muito mais prevalentes do que os casos de dependência severa de maconha estudados na Nova Zelândia. E o estigma em torno da saúde mental — e em torno do uso de medicamentos para tratá-la — faz com que muitas crianças fiquem sem a ajuda de que precisam por anos.

⚠️ Pais que buscam tratamento para filhos com dificuldades emocionais estão fazendo um dos maiores favores possíveis a esses filhos — ao intervir antes que eles comecem a se “tratar” por conta própria, com maconha, álcool ou outros analgésicos emocionais.

Intervenção precoce: a janela que não espera

A plasticidade do cérebro adolescente é uma faca de dois gumes: o mesmo cérebro que é vulnerável a influências negativas é também altamente responsivo a intervenções positivas. A infância e a adolescência são o melhor momento para tratar transtornos emocionais, justamente porque o cérebro ainda está em formação e tem maior capacidade de reorganização.

Terapia comportamental, acompanhamento psicológico e, em alguns casos, medicação adequada podem mudar a trajetória de vida de uma criança — antes que os mecanismos mal-adaptativos se instalem como padrão, antes que o abandono escolar aconteça, antes que a automedicação com substâncias se torne o único jeito que o adolescente conhece de se sentir melhor.

A pergunta que mais importa não é apenas “meu filho está usando maconha?” — é “por que meu filho está usando maconha?” A resposta a essa segunda pergunta é o que abre o caminho para a ajuda real.

Fonte: Adaptado de Does Teenage Marijuana Use Affect IQ?, Dr. Harold S. Koplewicz, MD, Child Mind Institute (childmind.org). Última revisão do original: março de 2026. Adaptação: adolesc.com.br, maio de 2026.

Dr. Marcelo Meirelles

CRM MG 45.283

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Formação

Médico Pediatra

⭐ Título de Especialista em Pediatria · SBP e AMB

⭐ Instrutor de Reanimação Neonatal · SBP

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Especialidade

Médico Hebiatra

⭐ Título de Especialista em Medicina do Adolescente · SBP e AMB

⭐ Pós-graduação em Psiquiatria na Infância e Adolescência




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