A bromidrose, também conhecida como osmidrose ou odor corporal, é um fenômeno comum em adolescentes e adultos. É uma condição crônica na qual o odor excessivo, geralmente desagradável, emana da pele.
Em casos raros, pode tornar-se patológica — quando particularmente intensa ou quando interfere significativamente com a vida dos indivíduos afetados.
Fisiopatologia
Tipos de Glândulas e Suas Funções
As glândulas secretoras humanas são divididas principalmente em dois tipos: apócrinas e écrinas.
Distribuídas por toda a superfície da pele. Envolvidas na termorregulação por meio da produção de suor. Produzem secreção normalmente inodora.
Distribuição limitada a axilas, genitais e seios (com elementos também nas áreas periorbitária e periauricular). Não têm papel termorregulador, mas são responsáveis por odores feromonais. Secretam fluido oleoso inodoro ao atingir a pele — o odor característico resulta da decomposição bacteriana desse fluido.
Achados histológicos sugerem que as glândulas écrinas são dominantes na derme. As apócrinas estão localizadas na parte inferior da derme reticular e no tecido subcutâneo, sendo muito maiores do que as écrinas.
Há evidências de existir, na axila humana, um terceiro tipo de glândula sudorípara: a glândula apoécrina. Ela apresenta dilatação do túbulo secretor, mas tem um duto longo e delgado que não se abre em folículo piloso. Torna-se aparente entre 8 e 14 anos de idade, desenvolve-se a partir de glândulas écrinas e contribui fortemente para a sudorese axilar global.
Bromidrose Apócrina
É a forma mais prevalente. A flora bacteriana axilar produz o odor através da transformação de precursores não odoríferos em ácidos mais voláteis e odoríferos. A decomposição bacteriana da secreção apócrina produz amônia e ácidos graxos de cadeia curta.
Os ácidos mais abundantes são o ácido 3-metil-2-hexenóico (transportado até a superfície da pele ligado às proteínas ASOB1 e ASOB2) e o ácido 3-hidróxi-3-metil-hexanóico. Esses e outros ácidos odoríferos são liberados pela ação da aminoacilase N-alfa-acil-glutamina (N-AGA), a partir de espécies de Corynebacterium.
Bromidrose Écrina
Em algumas situações, a secreção écrina — normalmente inodora — assume aroma desagradável. A queratina amolecida pelo suor écrino sofre degradação bacteriana, com produção de mau cheiro.
- Ingestão de alimentos como alho, cebola, curry e álcool
- Certas drogas: penicilina, brometos
- Causas metabólicas ou endógenas subjacentes
- Hiperidrose: pode promover propagação do suor apócrino e multiplicação bacteriana — mas também pode diluir o suor apócrino, reduzindo o odor
Epidemiologia
- Incidência: provavelmente subnotificada. Diagnóstico mais frequente em países asiáticos, onde mesmo o mínimo odor corporal está associado a angústia pessoal e leva mais pacientes a buscar tratamento.
- Raça: a bromidrose apócrina é considerada mais comum em pacientes de grupos étnicos de pele escura. Em pacientes asiáticos, pode estar associada a história familiar positiva. A bromidrose écrina ocorre em pessoas de todas as raças.
- Sexo: predominância masculina, possivelmente reflexo de maior atividade das glândulas apócrinas em homens.
- Idade: a bromidrose axilar apócrina se manifesta exclusivamente após a puberdade — depende da função apócrina. É rara na população idosa. A bromidrose écrina é mais comum durante a infância, mas pode ocorrer em qualquer idade.
Etiologia
A secreção excessiva de glândulas apócrinas ou écrinas que se torna fétida por ação bacteriana é a causa predominante. Condições associadas à hiperidrose ou ao crescimento bacteriano excessivo podem contribuir:
- Higiene inadequada
- Obesidade e diabetes mellitus
- Intertrigo, tricomicose axilar, eritrasma
- Colonização por outras bactérias (ex.: Sphingomonas paucimobilis)
- Ingestão de alimentos específicos (alho, cebola, curry, álcool) ou drogas (penicilina, brometos)
- Distúrbios metabólicos: fenilcetonúria, trimetilaminúria (síndrome do odor de peixe), acidemia isovalérica, hipermetioninemia
- Hiperidrose como efeito adverso de depilação a laser (reversão espontânea em 20% dos casos)
- Fantosmia: percepção de odores sem estímulo (esquizofrenia, doenças neurológicas, lesões do lobo temporal)
- Síndrome da Referência Olfativa: crença de que o próprio corpo emite mau cheiro
Quadro Clínico
Odor corporal particularmente desagradável, mais comumente originado na região axilar. Pode ocorrer também como bromidrose genital ou plantar. O odor é descrito como pungente, rançoso, mofado ou amargo.
É uma doença metabólica e funcional, não associada a distúrbio anatômico. O exame físico geralmente não apresenta achados relevantes, exceto quando há condições de pele associadas:
- Eritrasma: erupção macular eritematosa com margem acentuada — causada por Corynebacterium minutissimum
- Tricomicose axilar: concreções visíveis nos pelos da área afetada
- Bromidrose écrina plantar/intertriginosa: maceração e camada espessa de queratina úmida ao exame
Diagnóstico
Normalmente, a percepção olfativa do odor desagradável é a única ferramenta clínica necessária para o diagnóstico. Exames complementares têm utilidade limitada ou específica:
| Exame | Utilidade |
|---|---|
| Cromatografia ou espectroscopia | Identificação de moléculas odoríferas — mais relevância acadêmica do que diagnóstica ou terapêutica |
| Teste de iodo de amido | Demonstra áreas de transpiração excessiva, mas não caracteriza o mau cheiro |
| Lâmpada de Wood | Eritrasma: fluorescência coral-vermelha característica causada por Corynebacterium minutissimum |
| Preparação de KOH | Demonstra presença de hifas (infecções fúngicas associadas) |
| Método de Gram | Identificação bacteriana |
| Testes de urina ou suor | Úteis quando se suspeita de distúrbio metabólico subjacente |
| Biópsia de pele | Raramente indicada. Pode ser usada para avaliar glândulas apócrinas quando se consideram opções cirúrgicas |
Tratamento
Ao escolher a modalidade terapêutica, considerar as implicações culturais, o grau de comprometimento da qualidade de vida e as expectativas do paciente.
a) Higiene e Agentes Antibacterianos Tópicos
- Lavagem adequada das axilas com sabonetes antibacterianos
- Remoção rápida de roupas suadas
- Uso de desodorante tópico (reduz o odor e diminui a contagem bacteriana)
- Depilação dos pelos axilares (evita acúmulo de suor e bactérias)
- Antibióticos tópicos (clindamicina, eritromicina): reservar para quando os anti-sépticos são ineficazes — risco maior de resistência bacteriana
- Tratamento de doenças de pele associadas: intertrigo, eritrasma, tricomicose axilar
b) Cuidados com a Alimentação
Suspender a ingestão de alimentos como curry, cebola, alho e álcool pode ser útil quando esses fatores forem identificados como contributivos para a bromidrose.
c) Agentes Secativos
- Antitranspirantes: contêm sais de alumínio, que inibem a produção de suor. Diferem dos desodorantes, que apenas cobrem o odor. Úteis na bromidrose apócrina e écrina, especialmente quando há hiperidrose associada.
- Iontoforese: corrente elétrica passa pela pele enquanto a área afetada é colocada sob água. Indicada tipicamente para palmas das mãos e plantas dos pés. Não reduz a produção de suor apócrino.
- Anticolinérgicos sistêmicos: diminuem a transpiração, mas o uso é limitado pelos efeitos adversos.
d) Lasers e Toxina Botulínica
- Laser Nd:YAG (1064 nm): efetivo na bromidrose axilar. Na wavelength de 1444 nm, usado para coagulação subdérmica e destruição das glândulas apócrinas — mais de 75% dos pacientes relataram satisfação até 6 meses após a aplicação.
- Toxina botulínica A: reduz o odor axilar por inibição das glândulas sudoríparas. Particularmente eficaz quando há forte correlação entre mau cheiro e transpiração. Casos de melhora de bromidrose genital também foram reportados.
e) Tratamento Cirúrgico
Indicado quando os demais tratamentos são insuficientes. Mais utilizado em países asiáticos, onde o odor axilar causa maior sofrimento social. Pode melhorar o manejo a longo prazo, mas está associado a risco de cicatrizes, complicações e recorrência.
| Técnica | Descrição e resultados |
|---|---|
| Remoção do tecido subcutâneo sem remoção da pele | Fáscia superficial axilar removida com as glândulas apócrinas. Em técnicas minimamente invasivas, a fáscia é preservada. Curetagem subcutânea combinada com cortes de gordura: 98% dos pacientes relataram resultados bons a excelentes. |
| Remoção do tecido subcutâneo e da pele em bloco | Dependendo da profundidade, pode ocorrer regeneração da função glandular após alguns anos. Pode ser combinada com laser de CO₂ para vaporizar glândulas residuais. |
| Lipoaspiração superficial com curetagem dérmica | Procedimento ambulatorial, menos traumático, com incisão menor e cuidados pós-operatórios mínimos. Taxa de recorrência maior que a cirurgia aberta. Versão assistida por ultrassom apresenta menores taxas de recorrência. |
| Simpatectomia torácica superior | Taxa de satisfação de 70,6% em estudo em Taiwan. Mais utilizada para hiperidrose axilar e palmar do que para bromidrose isolada. |
Medscape. Bromhidrosis. Disponível em: medscape.com

