Desenvolvimento Psicossocial do Adolescente





O desenvolvimento psicossocial positivo na adolescência é resultado de um processo longo e cumulativo, influenciado pelo desenvolvimento psicossocial prévio do indivíduo, pelas mudanças físicas e cognitivas do período e pelos contextos sociais e interpessoais em que o jovem vive.

É caracterizado por duas tarefas de desenvolvimento inter-relacionadas que acontecem simultaneamente:

  • Desenvolvimento de senso de independência: desenvolvimento de competência e autonomia em relação à influência de outras pessoas.
  • Desenvolvimento de senso de interdependência: desenvolvimento de conexões e compromissos com indivíduos e instituições sociais além da família, de maneira cada vez mais madura.
Interdependência é um conceito que rege as relações entre os indivíduos, onde um único indivíduo é capaz de, através de seus atos, causar efeitos — positivos e/ou negativos — em toda a sociedade. Ao mesmo tempo, esse mesmo indivíduo é influenciado pelo todo.

Etapas da Adolescência — Critério Cronológico

A adolescência é conceituada como uma fase de desenvolvimento do ser humano situada entre a infância e a idade adulta que, apesar de transitória, é extremamente importante — neste período são obtidas as características físicas, psicológicas e sociais do adulto.

A avaliação do desenvolvimento na adolescência reveste-se de maior complexidade porque existe uma variabilidade individual muito grande. Na média, as meninas entram na puberdade um a dois anos antes dos meninos — mas a idade e a velocidade com que ocorrem as modificações são extremamente diversas de um indivíduo para outro.

O ponto em comum que distingue a adolescência é a transformação: assumir mudanças na imagem corporal, adotar valores e estilo de vida, conseguir independência dos pais e estabelecer uma identidade própria são as principais tarefas desta fase.

Adolescência Inicial

Dos 10 anos completos aos 14 anos incompletos (13 anos, 11 meses e 29 dias)

Período marcado pelo rápido crescimento e pela entrada na puberdade.

  • Independência: diminui o interesse pelas atividades com os pais
  • Imagem corporal: preocupação consigo e com as mudanças puberais; insegurança acerca da aparência
  • Grupo: relação intensa com amigos do mesmo sexo
  • Identidade: desenvolvimento da inteligência; aumenta o mundo da fantasia; vocação idealizada; aumenta a necessidade de privacidade; impulsividade

Adolescência Média

Dos 14 anos completos aos 17 anos incompletos (16 anos, 11 meses e 29 dias)

Caracteriza-se pelo desenvolvimento intelectual e pela maior valorização do grupo.

  • Independência: conflito com os pais
  • Imagem corporal: aceitação do corpo; preocupação em torná-lo mais atraente
  • Grupo: comportamento conforme valores do grupo; atividade sexual e experimentação
  • Identidade: desenvolvimento da habilidade intelectual; onipotência; comportamento de risco

Adolescência Tardia ou Final

Dos 17 anos completos aos 20 anos incompletos (19 anos, 11 meses e 29 dias)

Consolida-se as etapas anteriores. Se todas as transformações tiverem ocorrido conforme previsto — com suporte familiar e do grupo de pares —, o adolescente estará pronto para as responsabilidades da vida adulta.

  • Independência: reaceitação dos valores parentais
  • Imagem corporal: aceitação das mudanças puberais
  • Grupo: valores dos pares são menos importantes; mais tempo em relações íntimas
  • Identidade: vocação realística e prática; refinamento dos valores sexuais, religiosos e morais; habilidade para assumir compromissos e para aceitar limites

Adolescência Estendida

Dos 20 anos completos aos 24 anos incompletos (23 anos, 11 meses e 29 dias)

Alguns estudiosos sugerem estender a adolescência até os 24 anos de idade, por questões fisiológicas e socioculturais — incluindo o tempo mais longo que os jovens contemporâneos levam para assumir papéis adultos plenos.

Limites da Adolescência

A adolescência é definida de maneiras diferentes conforme o critério utilizado:

Critério Início Fim
Biológico Início da puberdade Capacidade reprodutiva
Emocional Individuação em relação aos pais Desenvolvimento de senso de identidade
Cognitivo Emergência das operações formais Consolidação das operações formais
Interpessoal Aproximação dos pares Capacidade de intimidade
Social Treino de papéis adultos Status de adulto
Educacional Início do Ensino Fundamental II (6º ao 9º ano) Conclusão do Ensino Médio (1º ao 3º ano)
Legal (ECA) 12 anos completos 18 anos completos (maioridade)
Cronológico (MS/OMS) 10 anos completos 20 anos completos
Operações formais (Piaget): a crescente capacidade para considerar tanto as realidades com as quais se entra em contato, como as que podem ou não existir fisicamente. O pensamento formal permite a conceituação de abstrações e de eventos concretos — aumenta a habilidade na resolução de problemas e contribui para o idealismo típico da adolescência. A capacidade de conceituar o mundo como ele poderia ser frequentemente leva os adolescentes a questionar por que o mundo real não corresponde ao ideal potencial.

No Brasil, o ECA (Lei 8.069/1990) considera criança a pessoa até 12 anos de idade incompletos e define a adolescência como a faixa etária de 12 a 18 anos (Art. 2º). Em casos excepcionais e quando disposto na lei, o estatuto é aplicável até os 21 anos. O adolescente pode votar opcionalmente a partir dos 16 anos. O Ministério da Saúde e a OMS adotam o critério cronológico de 10 a 20 anos. A SBP e o CFM consideram a adolescência uma área de especialização dentro da pediatria.

Puberdade e Desenvolvimento Psicossocial

A entrada na puberdade e o início da fertilidade podem ter efeitos sobre o comportamento. Mudanças na autoestima foram observadas em meninas a partir dos 11 anos, com recuperação lenta entre os 15 e 18 anos — coincidindo com aumento da massa corporal e com a transformação do pensamento concreto para o formal.

Piaget e o pensamento formal na adolescência: para Piaget, as transformações emocionais dependem das transformações cognitivas. Uma das grandes transformações do estágio operatório formal é o surgimento do pensamento hipotético-dedutivo: diferente da criança — que raciocina apenas sobre proposições que julga verdadeiras, apoiando-se no concreto —, o adolescente torna-se capaz de raciocinar sobre proposições em que não acredita ainda, pensando e refletindo hipoteticamente. Assim, adquire a capacidade de ultrapassar, pelo pensamento, situações vividas e de projetar ideias para o futuro.
  • Meninas com menarca antes dos 11 anos têm maior probabilidade de apresentar comportamentos de risco, porém na vida adulta não há diferenças no ajuste social em comparação com meninas de menarca mais tardia
  • Meninas que parecem sexualmente maduras são mais propensas a se envolverem em relacionamentos amorosos, independentemente da idade cronológica
  • Os níveis de testosterona nos homens aumentam 10 a 20 vezes durante a adolescência — contribuindo para aumento do interesse sexual e da competitividade, o que pode se estender a áreas de risco sem construções e orientações sociais efetivas
  • A autoestima geralmente aumenta nos homens durante a adolescência; meninos com entrada tardia na puberdade apresentam maiores taxas de abuso de substâncias e menor autoestima

Facilitando o Desenvolvimento Psicossocial Positivo

O indivíduo entra na adolescência altamente dependente dos pais para orientação e governança, e engajado em relacionamentos que, em sua maioria, carecem de intimidade e profundidade. No final da adolescência — se tudo correr bem —, adquire um senso de independência saudável e responsável, senso de identidade e a capacidade de desenvolver relacionamentos profundos e significativos.

Os principais ingredientes para o desenvolvimento psicossocial bem-sucedido são:

  • Um ambiente familiar em que os pais sejam responsivos e apoiem a necessidade de individuação do adolescente
  • Envolvimento em uma rede social de pares — do mesmo sexo e do sexo oposto — que estejam em uma trajetória de desenvolvimento psicossocial saudável
  • Oportunidades para experimentar e explorar novas responsabilidades e relacionamentos
Responsividade, na psicologia, refere-se a atitudes compreensivas que visam, através do apoio emocional e da bidirecionalidade na comunicação, favorecer o desenvolvimento da autonomia e da autoafirmação.
✅ Embora o desenvolvimento psicossocial positivo seja construído a partir de uma base sólida na infância, as experiências durante os anos da adolescência também são determinantes. O suporte familiar responsivo e as oportunidades de exploração controlada são fatores modificáveis com alto impacto no desfecho do desenvolvimento.

Referências Bibliográficas

Craig KR, Biro FM. Normal Pubertal Physical Growth and Development. In: Fisher MM et al (Org.). Textbook of Adolescent Health Care. AAP, 2011. cap. 4, p. 23-31.

Steinberg L, Collins WA. Adolescent Psychosocial Development and Behavior. In: Fisher MM et al (Org.). Textbook of Adolescent Health Care. AAP, 2011. cap. 6, p. 39-44.

Reato LFN. Desenvolvimento da Sexualidade. In: Françoso LA, Mauro AMMF (Org.). Manual de Atenção à Saúde do Adolescente. São Paulo: Secretaria de Saúde, 2006. cap. 6, Seção III, p. 95-105.

Dr. Marcelo Meirelles

CRM MG 45.283

🩺

Formação

Médico Pediatra

⭐ Título de Especialista em Pediatria · SBP e AMB

⭐ Instrutor de Reanimação Neonatal · SBP

👨‍⚕️

Especialidade

Médico Hebiatra

⭐ Título de Especialista em Medicina do Adolescente · SBP e AMB

⭐ Pós-graduação em Psiquiatria na Infância e Adolescência




2 comentários em “Desenvolvimento Psicossocial do Adolescente”

  1. Bernadete Araujo dos Reis Martins

    Gostei muito da maneira como foi descrito as fazes dos adolescentes, no que diz a respeito da faixa etária e suas mudanças hormonais e em seu conportamento que está relacionado a convivencia familiar, auto-estima elevado, desinterece pela família, mudanças de comportamento. Podemos até citar um pouco de rebeldia, com diz respeito as pessoas com mais idade.
    Podemos observar também, que são ciclo da vida que se repete, passando de geração para geração. As vezes, os adultos não querem entender que já passou por essa faze.
    Muitos adolescentes nesta faze, também querem a atenção voltada para eles, principalmente no que se trata de estrutura familiar. Podemos lidar melhor com eles quando impomos regras, pois através das regras se sentem mais seguros e responsáveis.

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