Pré-adolescentes e adolescentes assistem a séries, vídeos e filmes em celulares, tablets e computadores — muitas vezes sozinhos, em seus quartos, com fone de ouvido. Para os pais, isso significa perder o controle sobre o que o filho consome e, mais importante, perder oportunidades valiosas de conexão. Mas existe uma estratégia simples e subestimada que pode reverter parte disso: assistir junto.
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A pré-adolescência é o período em que os filhos começam a confidenciar menos com os pais — exatamente quando as questões de identidade, os dramas de amizade e a pressão dos pares se intensificam. Séries e outros conteúdos de mídia exercem uma influência enorme sobre jovens nessa fase.
Assistir junto é uma forma de os pais se manterem informados sobre os “memes culturais” que seu filho está absorvendo — sem precisar fazer perguntas diretas que o adolescente provavelmente responderia com uma careta. O conteúdo da série vira o assunto da conversa, não o filho.
A própria Dra. Steiner-Adair assistiu com a filha a uma série canadense sobre adolescentes durante os anos de ensino médio. O que era entretenimento virou uma porta de entrada natural para conversar sobre sentimentos, impacto nas outras pessoas, diferenças, raça, classe e identidade — temas que raramente surgem em uma conversa direta entre pais e filhos.
Criar rituais de conexão
Assistir junto pode se tornar um ritual familiar que cria um espaço seguro de proximidade — especialmente em momentos de turbulência. Uma série que pai e filho acompanham juntos toda semana vira um ponto de encontro regular: algo que pertenece aos dois, que não precisa ser “importante” para ser significativo.
Esse tipo de tempo compartilhado tem um efeito acumulativo: ao longo de semanas e meses, constrói um repertório comum, um sentido de parceria e uma familiaridade que facilita as conversas difíceis quando elas precisam acontecer.
Fazer o filho falar — sem que pareça uma entrevista
O Dr. Matthew Rouse, psicólogo clínico, observa que depois de assistir juntos a um conteúdo difícil ou desconfortável e conversar sobre ele, o filho tende a ser mais propenso a procurar o pai quando enfrentar uma situação semelhante na vida real.
O mecanismo é simples: falar sobre temas sensíveis e pessoais fica mais fácil quando eles aparecem primeiro em terceira pessoa — em um personagem fictício. A partir daí, aos poucos, a conversa pode circular até chegar ao que o filho realmente está vivendo. Se os pais já conversaram sobre imagem corporal distorcida em uma série, por exemplo, o filho sente que eles “já estão por dentro” e tem mais facilidade de trazer isso quando começa a acontecer na vida dele.
Fazer o controle de danos — sem proibir
Com a proliferação de dispositivos, tornou-se praticamente impossível impedir que adolescentes assistam a conteúdos que os pais não aprovariam. A abordagem mais eficaz não é proibir — é estar presente.
Quando você assiste junto, tem a oportunidade de comentar, questionar e contextualizar o que o filho está vendo — sobre raça, gênero, estereótipos, violência, sexualidade, saúde mental. Não como uma aula, mas como uma conversa natural disparada pelo próprio conteúdo.
O Dr. Peter Faustino, psicólogo escolar, alerta que proibir o filho de assistir a algo que todos os amigos estão assistindo tende a fechar a porta para conversas com adolescentes. Uma abordagem melhor é perguntar por que ele quer assistir. A resposta revela muito mais do que o conteúdo em si.
Como aproveitar melhor o tempo assistindo juntos
Algumas orientações práticas para transformar o tempo de tela compartilhado em tempo de qualidade:
- Deixe o filho escolher. Você está entrando no universo dele — não o contrário. Aceitar a série favorita dele sem reclamar já é um gesto de respeito.
- Assista sem o celular. Presença parcial não conta. Se você está respondendo mensagens enquanto “assiste junto”, o filho percebe — e a mensagem que recebe é: você não é prioridade.
- Faça perguntas abertas, não julgamentos. Em vez de “Que absurdo essa cena”, tente “O que você acha que aquele personagem estava sentindo?” Curiosidade abre conversa. Julgamento fecha.
- Não transforme em aula. Você pode ter uma opinião sobre o que está vendo — mas solte aos poucos, com leveza. Quem dá sermão perde o ouvinte.
- Use o que assistiram como referência depois. “Lembra daquela situação na série? Algo parecido aconteceu com você alguma vez?” Esse tipo de gancho é uma das formas mais suaves de abrir conversas difíceis.
Séries e vídeos fazem parte do mundo do seu filho. Entrar nesse mundo com ele — com curiosidade genuína, sem julgamento — é uma das formas mais simples e mais poderosas de manter a conexão nos anos em que ela mais precisa ser cultivada.

