Para muitos adolescentes, a maconha é vista como uma droga “leve” — menos perigosa do que o álcool, menos viciante do que outras substâncias. Essa percepção de baixo risco se espalhou ainda mais com a crescente legalização da cannabis em vários países. Mas um relatório da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, que avaliou mais de mil estudos sobre o tema, chegou a conclusões preocupantes — especialmente no que diz respeito a um risco específico: o de desencadear ou antecipar transtornos psicóticos, incluindo esquizofrenia.
Maconha causa esquizofrenia?
Talvez. Talvez não. O Dr. Michael Birnbaum, psiquiatra infantil e especialista em primeiros episódios psicóticos, é cuidadoso na resposta: “Eu não diria aos meus pacientes que foi uma baseada específica que causou a doença psicótica. Trabalho com jovens que fumaram intensamente por vários anos e ainda assim não afirmaria com segurança que a maconha causou a esquizofrenia. Isso seria perigoso de dizer.”
O desenvolvimento de um transtorno psicótico é multifatorial — nunca resulta de uma causa única. No entanto, as evidências científicas acumuladas apontam consistentemente para uma associação. O uso intenso, a progressão de uso ocasional para diário e a exposição precoce estão todos associados ao aparecimento de psicose. E mais: há evidências de que a maconha pode antecipar o início da doença em pessoas que teriam desenvolvido esquizofrenia de qualquer forma — e possivelmente desencadear o transtorno em pessoas que, sem o uso, nunca o teriam desenvolvido.
O que a pesquisa mostra com mais clareza
O Dr. Michael Compton, professor de psiquiatria clínica da Universidade Columbia, conduziu estudos com centenas de pacientes hospitalizados após um primeiro episódio psicótico. Os dados foram detalhados: início dos sintomas prodrômicos, início dos sintomas psicóticos e padrão de uso de maconha ao longo do tempo.
Os resultados foram consistentes em dois estudos: a escalada no uso de maconha — não apenas o uso, mas o aumento da frequência — esteve associada a um início mais precoce tanto dos sintomas prodrômicos quanto dos sintomas psicóticos. Isso sugere que o uso adolescente de maconha não é apenas um fator de risco para o desenvolvimento futuro de transtornos psicóticos, mas também para um início mais precoce desses transtornos.
Parar de usar maconha elimina a psicose?
Usar menos maconha reduz o risco de um primeiro episódio psicótico. Mas para quem já desenvolveu esquizofrenia ou outro transtorno psicótico, parar de usar não faz a doença desaparecer. Esquizofrenia e outros transtornos psicóticos são condições de longo prazo que exigem manejo contínuo.
Quanto uso é arriscado demais?
Não existe uma dose mínima segura definida com precisão. A moderação importa — uso ocasional é muito menos arriscado do que uso regular ou diário — mas não há como saber de antemão qual o limiar de risco para cada pessoa. Parte do problema é que a pesquisa científica rigorosa sobre maconha ainda é limitada, dificultada por décadas de restrições regulatórias à pesquisa com a substância.
O Dr. Birnbaum oferece uma orientação prática importante: se um jovem experimenta alucinações ou outros sintomas psicóticos enquanto está sob efeito de maconha, isso é um sinal de que pode ter predisposição para algum tipo de transtorno psicótico. Para esse grupo, a recomendação é clara — evitar a substância.
O que dizer ao seu filho
A melhor abordagem não é ameaças ou catastrofização — é informação honesta. Algumas mensagens essenciais que especialistas recomendam transmitir:
- Uso ocasional é muito menos arriscado do que uso regular ou diário — mas isso não significa que seja sem risco.
- Começar mais novo aumenta o risco de dependência e de consequências para o cérebro em desenvolvimento — e pode comprometer desempenho escolar e relações sociais.
- Se tiver alucinações ou experiências estranhas enquanto usa maconha, isso pode ser um sinal de que seu cérebro é mais vulnerável — e que você deveria parar e conversar com um profissional.
- Ainda não sabemos tudo sobre os efeitos da maconha no cérebro adolescente. Essa incerteza é, em si, uma razão para cautela.
Essa conversa deve começar cedo — e se repetir. Não como sermão, mas como diálogo aberto sobre fatos reais, com honestidade sobre o que ainda não sabemos. Quanto mais seu filho souber, mais equipado estará para tomar decisões que fazem sentido para ele — não para você.

